quinta-feira, 18 de março de 2010

Could be?





Dos existentes, era mistura de todos os elementos irreconciliáveis. Dentre tensões não havia quaisquer promessas de alívio, sem compressas, menos ainda qualquer remédio amargo que as solucionassem. Não de uma vez só, não definitivamente. Descansos sobrevinham, mas somente no vez em quando da vida crua. E assim era e foi até o dia da inevitável morte do pouco que era vivo. Morre-se lentamente, quase sem perceber o cheiro acre do não funcional, do que não serve, do que sobra e ninguém mais percebe como transcendência. Morre-se sem público e epitáfios, com raros aplausos dos pares que, se ainda vivem devem deixar de sê-los, ao preço irrisório de uma breve e inofensiva concessão. Ainda e sobretudo por momentos de amor. Eros foi o motivo da vida pujante, cobrando o espólio da corrupção inevitável. Era mulher, mormente mulher. Ainda em crisálida resolveu testar os dotes de Ártemis, quis provar a valentia, abusou e dando de cara em muros instransponíveis, optou por continuar. Porque não testar a pretensa idéia do superável? Só mesmo para desacreditar no que diante de seus olhos mais abertos não podia ser negado. Revoltou-se de menina e de cara feia e palavrões no alvo tentou ser docilmente inoportuna. Quimera rapidamente compreendida e desfeita. Ou era cobra ou não era nada, entendendo que lobo em pele de cordeiro era ditado para homens. Fingir só se fosse na mais veemente crença da verdade, não lhe fora dado o dom do meio termo. Mulher é vício e tem de sê-lo caso queira que o peso do juízo refratário solte de seus pés. E vá, sem reticências, sem ao menos os versos metrificados, crendo que a culpa era de Pandora, danada informe, legando ao gênero o fardo de ser arte moderna, sem eira nem beira, sem rodapé e esquadro. Sendo mineira, caminhou dizendo, mas com significação, sem artífices de intelectual: e agora menina? A ilusão do escolher é doce e mantêm ordenadas cabeças e almas quase indômitas. A invenção do inusitado é trabalho geológico, imperceptível para um olho vivo e óbvio demais para as afortunadas que, confortáveis esperam o brinde sarcástico de uma tarefa muito simples para tanto alarde. Construir mulher é tarefa desmedida, sem estrutura, colocar ruídos que ninguém quer ouvir. E depois de construída, inventar outros estilos que antes de serem erguidos já serão ultrapassados. Tarefa de Sísifo, inglória e datada. Se me perguntarem se aceito buscar um caminho sem fim ou se me comprometo no ofício da tentativa, respondo como um grego, ou em essência como moça quase legítima: “para quem procura a beleza, belos serão os trabalhos que a beleza lhe impõe”.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

About Gods



Hoje estive pensando em Deus. Antes que a afirmação seja vista sob o aspecto pessoal já adianto que o caráter real de tal pensamento não foi de origem mística. Para o alívio dos chegados e desapontamento dos meus familiares continuo cética, mas algo anda incomodando minha cabeça caduca. Enquanto estou sozinha em casa ou com os amigos para os quais essa questão não tem lá tanta importância meu ateísmo vai de vento em popa, sem dúvidas, arrependimento, reconsideração ou coisa que o valha. O ponto é: até onde eu posso ir com essa perspectiva? Verdade seja dita: proclamar-se ateu é quase como se assumir um ser amoral e vadio e há algo constrangedor nessa posição. Aceitamos as opiniões mais bizarras e estapafúrdias no dia a dia. Ouvimos sem dar gargalhadas idéias tais como reencarnação, purgatório, beatitude e até consideramos o caríssimo Papa como um interlocutor possível em questões morais, por mais estranho que isso possa parecer. As pessoas em geral acreditam na existência de espíritos, na vida após a morte, no arrebatamento, fazem leituras literais da Bíblia, doam dinheiro para instituições corruptas e acreditam em suas mais variadas crenças. Eu, particularmente, nunca tive a coragem de desmentir publicamente algum religioso, não ao menos sem lhe dar ampla possibilidade de defesa. Talvez por saber que a razão humana tenha seus limites e que todo conhecimento possa vir a ser questionado, acabamos por aceitar certas sandices em nome do perspectivismo, palavrinha tão cara a nós modernos! Não sou daquele tipo de ateu que vai se abrigar nos confortáveis braços da ciência, ela própria comporta sua dose de crença. Mas as coisas deveriam ser analisadas com mais cuidado. Relativismo absoluto é uma idéia filosófica que parece beneficiar muito mais aos dogmáticos da religião do que libertar-nos do domínio tirânico da ciência. Somos tolerantes, interessamo-nos pelo aspecto cultural das religiões e eu, pessoalmente, até atribuo uma série de pontos positivos às religiões, ou pelos a algumas delas. Mas a questão é que, geralmente, alguém que se apresente como ateu não é tolerado nem respeitado. Ora, ficamos na desvantagem e penso até que nos escondemos dos outros para não sofrer retaliações. Se os religiosos resolverem exterminar os ateus, coisa que acredito não lhes interessa muito, já que estão mais ocupados em exterminar uns aos outros, não chegaria nem a ser um grande acontecimento. Somos poucos e dentre os raros ateus é ainda menor o número daqueles que proclamam publicamente sua opinião. O absurdo é que quem deveria dar explicações da sua fértil imaginação são os religiosos. É como se eu dissesse que a lua é feita de queijo gorgonzola e condenasse à forca todos que duvidassem de mim. Vamos e venhamos, tenham a religião quiser, adorem o totem que mais lhe agradarem, mas me deixem não acreditar em tantas doidices. Deus é no máximo um signo lingüístico, um afeto imaginário, um consolo da miséria ou o fruto de uma experiência mística e epifânica que só pertence a quem vivenciou o fato incomunicável da suposta existência divina. Que fique claro, eu respeito os crentes, e esse é todo o roteiro da estória.

Vida Longa




Uma mensagem mais que divulgada e importante!


Doze dicas para ter um infarto Feliz por Dr. Ernesto Artur – CARDIOLOGISTA

  1. Cuide de seu trabalho antes de tudo. As necessidades pessoais e familiares são secundárias;
  2. Trabalhe aos sábados o dia inteiro e, se puder também aos domingos;
  3. Se não puder permanecer no escritório à noite, leve trabalho para casa e trabalhe até tarde;
  4. Ao invés de dizer não, diga sempre sim a tudo que lhe solicitarem;
  5. Procure fazer parte de todas as comissões, comitês, diretorias, conselhos e aceite todos os convites para conferências, seminários, encontros, reuniões, simpósios etc.;
  6. Não se dê ao luxo de um café da manhã ou uma refeição tranqüila.
    Pelo contrário, não perca tempo e aproveite o horário das refeições para fechar negócios ou fazer reuniões importantes;
  7. Não perca tempo fazendo ginástica, nadando, pescando, jogando bola ou tênis. Afinal, tempo é dinheiro;
  8. Nunca tire férias, você não precisa disso. Lembre-se que você é de ferro;
    Centralize todo o trabalho em você, controle e examine tudo para ver se nada está errado.
  9. Delegar é pura bobagem; é tudo com você mesmo;
  10. Se sentir que está perdendo o ritmo, o fôlego e pintar aquela dor de estomago, tome logo estimulantes, energéticos e anti-ácidos. Eles vão te deixar tinindo;
  11. Se tiver dificuldades em dormir não perca tempo: tome calmantes e sedativos de todos os tipos. Agem rápido e são baratos.
  12. E por último, o mais importante: não se permita ter momentos de oração, meditação, audição de uma boa música e reflexão sobre sua vida . Isto é para crédulos e tolos sensíveis.

Repita para si: Eu não perco tempo com bobagens

domingo, 3 de janeiro de 2010

2010, eu e a garrafa




Vamos concordar que natal e reveillon são daqueles tipos de comemorações das quais ateu nenhum consegue escapar. Pois bem, até os mais pessimistas entre nós tomou conhecimento da parafernália do fim do ano. E vieram as comilanças, os presentinhos, Tim-Tim pra lá e pra cá. Bebemos de tudo, um verdadeiro carnaval alcoólico antecipado. Misturamos espumantes com cerveja e com o Scott que o amigo do peito trouxe para a festa. Demos um presente legal e ganhamos uma lembrancinha cafona ou nem mesmo fomos lembrados, tudo bem, afinal festa é festa. Pernil pra todo lado, farofas e arroz com passas. Como diz o meu amigo Paulo do Larica Total, “passas é a cara do fim do ano”. O meu natal foi com a família e com as fofocas naturais que esse gênero implica. Garantidas foram as gargalhadas com o lendário pai e isso já valeu o 25 de dezembro. Nasceu o menino Jesus palhaço entre nós. Eu e o pai, ele lembrando as frases de Mazzaropi, eu, as de Woody Allen. Já no ano novo, uma surpresa. Enquanto todos faziam a contagem regressiva eu me perdi na tentativa de abrir meu espumante de 35,00 reais. Literalmente, passei a virada às voltas com a rolha de uma garrafa. Estava concentrada no mecanismo, olhava, tentava e, de repente, escuto os gritos: “feliz 2010, feliz ano novo”. Emendei a solução e cheguei meio sem graça para cumprimentar a todos. O legal de tudo é a mesmice. Os votos formam uma cantiga de rodinha. Fico imaginado como seria se passássemos a virada com os inimigos, os públicos e os particulares. Imagina que maravilha: “Oi, eu quero que tenhas um péssimo ano, daqueles pra entrar pra a história”. Não, meu ano-novo foi tradicional, contou somente com grandes amigos e colegas. Curioso é que não fiz nenhum pedido, nenhuma promessa e nem sequer passei perto de reflexões existenciais. Tirando o fato de que essa já é minha profissão e eu quero mais é esquecer de pensar, esse fim de ano eu me ocupei da rolha da garrafa e somente dela. O espumante foi minha exclusividade, era ele e eu, um para o outro, sem interferências. E como eu saboreei o danado! Aquelas bolhinhas me enchem de felicidade, autêntica. Queria publicamente desejar um ano bastante generoso para todos os amigos e também para os “genboa” (gente boa), como dizia um tio meu quando bebia demais. E por favor, sem deslizamentos em praia bonita, enchentes e crimes passionais, vamos só tocar o barco e zelar pelos nossos pares de sangue e de boas idéias.