quinta-feira, 18 de março de 2010

Could be?





Dos existentes, era mistura de todos os elementos irreconciliáveis. Dentre tensões não havia quaisquer promessas de alívio, sem compressas, menos ainda qualquer remédio amargo que as solucionassem. Não de uma vez só, não definitivamente. Descansos sobrevinham, mas somente no vez em quando da vida crua. E assim era e foi até o dia da inevitável morte do pouco que era vivo. Morre-se lentamente, quase sem perceber o cheiro acre do não funcional, do que não serve, do que sobra e ninguém mais percebe como transcendência. Morre-se sem público e epitáfios, com raros aplausos dos pares que, se ainda vivem devem deixar de sê-los, ao preço irrisório de uma breve e inofensiva concessão. Ainda e sobretudo por momentos de amor. Eros foi o motivo da vida pujante, cobrando o espólio da corrupção inevitável. Era mulher, mormente mulher. Ainda em crisálida resolveu testar os dotes de Ártemis, quis provar a valentia, abusou e dando de cara em muros instransponíveis, optou por continuar. Porque não testar a pretensa idéia do superável? Só mesmo para desacreditar no que diante de seus olhos mais abertos não podia ser negado. Revoltou-se de menina e de cara feia e palavrões no alvo tentou ser docilmente inoportuna. Quimera rapidamente compreendida e desfeita. Ou era cobra ou não era nada, entendendo que lobo em pele de cordeiro era ditado para homens. Fingir só se fosse na mais veemente crença da verdade, não lhe fora dado o dom do meio termo. Mulher é vício e tem de sê-lo caso queira que o peso do juízo refratário solte de seus pés. E vá, sem reticências, sem ao menos os versos metrificados, crendo que a culpa era de Pandora, danada informe, legando ao gênero o fardo de ser arte moderna, sem eira nem beira, sem rodapé e esquadro. Sendo mineira, caminhou dizendo, mas com significação, sem artífices de intelectual: e agora menina? A ilusão do escolher é doce e mantêm ordenadas cabeças e almas quase indômitas. A invenção do inusitado é trabalho geológico, imperceptível para um olho vivo e óbvio demais para as afortunadas que, confortáveis esperam o brinde sarcástico de uma tarefa muito simples para tanto alarde. Construir mulher é tarefa desmedida, sem estrutura, colocar ruídos que ninguém quer ouvir. E depois de construída, inventar outros estilos que antes de serem erguidos já serão ultrapassados. Tarefa de Sísifo, inglória e datada. Se me perguntarem se aceito buscar um caminho sem fim ou se me comprometo no ofício da tentativa, respondo como um grego, ou em essência como moça quase legítima: “para quem procura a beleza, belos serão os trabalhos que a beleza lhe impõe”.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

About Gods



Hoje estive pensando em Deus. Antes que a afirmação seja vista sob o aspecto pessoal já adianto que o caráter real de tal pensamento não foi de origem mística. Para o alívio dos chegados e desapontamento dos meus familiares continuo cética, mas algo anda incomodando minha cabeça caduca. Enquanto estou sozinha em casa ou com os amigos para os quais essa questão não tem lá tanta importância meu ateísmo vai de vento em popa, sem dúvidas, arrependimento, reconsideração ou coisa que o valha. O ponto é: até onde eu posso ir com essa perspectiva? Verdade seja dita: proclamar-se ateu é quase como se assumir um ser amoral e vadio e há algo constrangedor nessa posição. Aceitamos as opiniões mais bizarras e estapafúrdias no dia a dia. Ouvimos sem dar gargalhadas idéias tais como reencarnação, purgatório, beatitude e até consideramos o caríssimo Papa como um interlocutor possível em questões morais, por mais estranho que isso possa parecer. As pessoas em geral acreditam na existência de espíritos, na vida após a morte, no arrebatamento, fazem leituras literais da Bíblia, doam dinheiro para instituições corruptas e acreditam em suas mais variadas crenças. Eu, particularmente, nunca tive a coragem de desmentir publicamente algum religioso, não ao menos sem lhe dar ampla possibilidade de defesa. Talvez por saber que a razão humana tenha seus limites e que todo conhecimento possa vir a ser questionado, acabamos por aceitar certas sandices em nome do perspectivismo, palavrinha tão cara a nós modernos! Não sou daquele tipo de ateu que vai se abrigar nos confortáveis braços da ciência, ela própria comporta sua dose de crença. Mas as coisas deveriam ser analisadas com mais cuidado. Relativismo absoluto é uma idéia filosófica que parece beneficiar muito mais aos dogmáticos da religião do que libertar-nos do domínio tirânico da ciência. Somos tolerantes, interessamo-nos pelo aspecto cultural das religiões e eu, pessoalmente, até atribuo uma série de pontos positivos às religiões, ou pelos a algumas delas. Mas a questão é que, geralmente, alguém que se apresente como ateu não é tolerado nem respeitado. Ora, ficamos na desvantagem e penso até que nos escondemos dos outros para não sofrer retaliações. Se os religiosos resolverem exterminar os ateus, coisa que acredito não lhes interessa muito, já que estão mais ocupados em exterminar uns aos outros, não chegaria nem a ser um grande acontecimento. Somos poucos e dentre os raros ateus é ainda menor o número daqueles que proclamam publicamente sua opinião. O absurdo é que quem deveria dar explicações da sua fértil imaginação são os religiosos. É como se eu dissesse que a lua é feita de queijo gorgonzola e condenasse à forca todos que duvidassem de mim. Vamos e venhamos, tenham a religião quiser, adorem o totem que mais lhe agradarem, mas me deixem não acreditar em tantas doidices. Deus é no máximo um signo lingüístico, um afeto imaginário, um consolo da miséria ou o fruto de uma experiência mística e epifânica que só pertence a quem vivenciou o fato incomunicável da suposta existência divina. Que fique claro, eu respeito os crentes, e esse é todo o roteiro da estória.

Vida Longa




Uma mensagem mais que divulgada e importante!


Doze dicas para ter um infarto Feliz por Dr. Ernesto Artur – CARDIOLOGISTA

  1. Cuide de seu trabalho antes de tudo. As necessidades pessoais e familiares são secundárias;
  2. Trabalhe aos sábados o dia inteiro e, se puder também aos domingos;
  3. Se não puder permanecer no escritório à noite, leve trabalho para casa e trabalhe até tarde;
  4. Ao invés de dizer não, diga sempre sim a tudo que lhe solicitarem;
  5. Procure fazer parte de todas as comissões, comitês, diretorias, conselhos e aceite todos os convites para conferências, seminários, encontros, reuniões, simpósios etc.;
  6. Não se dê ao luxo de um café da manhã ou uma refeição tranqüila.
    Pelo contrário, não perca tempo e aproveite o horário das refeições para fechar negócios ou fazer reuniões importantes;
  7. Não perca tempo fazendo ginástica, nadando, pescando, jogando bola ou tênis. Afinal, tempo é dinheiro;
  8. Nunca tire férias, você não precisa disso. Lembre-se que você é de ferro;
    Centralize todo o trabalho em você, controle e examine tudo para ver se nada está errado.
  9. Delegar é pura bobagem; é tudo com você mesmo;
  10. Se sentir que está perdendo o ritmo, o fôlego e pintar aquela dor de estomago, tome logo estimulantes, energéticos e anti-ácidos. Eles vão te deixar tinindo;
  11. Se tiver dificuldades em dormir não perca tempo: tome calmantes e sedativos de todos os tipos. Agem rápido e são baratos.
  12. E por último, o mais importante: não se permita ter momentos de oração, meditação, audição de uma boa música e reflexão sobre sua vida . Isto é para crédulos e tolos sensíveis.

Repita para si: Eu não perco tempo com bobagens

domingo, 3 de janeiro de 2010

2010, eu e a garrafa




Vamos concordar que natal e reveillon são daqueles tipos de comemorações das quais ateu nenhum consegue escapar. Pois bem, até os mais pessimistas entre nós tomou conhecimento da parafernália do fim do ano. E vieram as comilanças, os presentinhos, Tim-Tim pra lá e pra cá. Bebemos de tudo, um verdadeiro carnaval alcoólico antecipado. Misturamos espumantes com cerveja e com o Scott que o amigo do peito trouxe para a festa. Demos um presente legal e ganhamos uma lembrancinha cafona ou nem mesmo fomos lembrados, tudo bem, afinal festa é festa. Pernil pra todo lado, farofas e arroz com passas. Como diz o meu amigo Paulo do Larica Total, “passas é a cara do fim do ano”. O meu natal foi com a família e com as fofocas naturais que esse gênero implica. Garantidas foram as gargalhadas com o lendário pai e isso já valeu o 25 de dezembro. Nasceu o menino Jesus palhaço entre nós. Eu e o pai, ele lembrando as frases de Mazzaropi, eu, as de Woody Allen. Já no ano novo, uma surpresa. Enquanto todos faziam a contagem regressiva eu me perdi na tentativa de abrir meu espumante de 35,00 reais. Literalmente, passei a virada às voltas com a rolha de uma garrafa. Estava concentrada no mecanismo, olhava, tentava e, de repente, escuto os gritos: “feliz 2010, feliz ano novo”. Emendei a solução e cheguei meio sem graça para cumprimentar a todos. O legal de tudo é a mesmice. Os votos formam uma cantiga de rodinha. Fico imaginado como seria se passássemos a virada com os inimigos, os públicos e os particulares. Imagina que maravilha: “Oi, eu quero que tenhas um péssimo ano, daqueles pra entrar pra a história”. Não, meu ano-novo foi tradicional, contou somente com grandes amigos e colegas. Curioso é que não fiz nenhum pedido, nenhuma promessa e nem sequer passei perto de reflexões existenciais. Tirando o fato de que essa já é minha profissão e eu quero mais é esquecer de pensar, esse fim de ano eu me ocupei da rolha da garrafa e somente dela. O espumante foi minha exclusividade, era ele e eu, um para o outro, sem interferências. E como eu saboreei o danado! Aquelas bolhinhas me enchem de felicidade, autêntica. Queria publicamente desejar um ano bastante generoso para todos os amigos e também para os “genboa” (gente boa), como dizia um tio meu quando bebia demais. E por favor, sem deslizamentos em praia bonita, enchentes e crimes passionais, vamos só tocar o barco e zelar pelos nossos pares de sangue e de boas idéias.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Cinema e coisas de gênero



Apesar da minha severa implicância com Freud e suas teorias da castração, devo admitir que os homens podem alegar a seu favor a existência factual de uma tradição um tanto quanto significativa. Nós mulheres que bradamos por um lugar ao sol devemos ainda esperar algumas gerações para perceber algum avanço nas relações de poder. O mundo ainda é bastante a favor dos machos e digo isso pensando nas expressões da cultura e da arte. Inspirada por Walter Benjamin, posso arriscar a dizer que a história das mulheres ainda não foi contada. È razoável pensar que mulheres fantásticas existiram e mudaram o curso da história. O fato é que algumas forças impediram que essas narrativas viessem à tona. Sou mais pessimista que os filósofos judeus, infelizmente são eles, os danadinhos, que perpetraram a crença na sua própria superioridade através da literatura, das artes e do cinema. Para as mulheres, pelo menos até então, (que me perdoem as feministas) sobrou o ditado digno de piedade: atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher!. Quando falo de cultura penso nesse caldo gelatinoso no qual reafirmamos nossas crenças e medos. Dizem as más línguas (Platão, por exemplo) que os discursos de Péricles eram feitos pela sua esposa, a sabichona Aspásia. O engraçado é que isso é motivo de chacota do grande estadista ateniense. Outras lendas povoam o imaginário, mas cá entre nós o ponto de referência é sempre dos meninos.
Se hoje a situação parece dar sinal de mudança não podemos dizer o mesmo de cinqüenta anos atrás. A questão melindrosa é que nós mulheres de 2009 não vivemos sob a simbologia do século XXI. Pelo contrário, fomos educadas e criadas por mães e pais nascidos nas décadas de 50 ou 60. Fatos marcantes do século XX foram determinados por atores masculinos. Posso conjeturar que Eva Braun fosse uma mulher bem malvadinha, mas seu grau de excelência na escola dos terrores está infinitamente abaixo do seu marido estimado. Quem entrou para a história? Ele, o bigodinho anti-semita.
No cinema em geral a mimesis é perfeita e as coisas caminham segundo o paradigma cromossômico do XY. Alguns exemplos retóricos: Don Vito Corleone (Poderoso Chefão), Rocky Balboa, Falcão, Jece Valadão, Joe Kidd, Alex de Large (Laranja Mecânica), Tony Montana (Scarface), Travis Bickle (Táxi Driver), Dave (2001), William Munny (Os imperdoáveis), O leão macho (O rei Leão), King Kong (porque não era uma fêmea heim?), ET, O Exterminador do Futuro, Blade Runner, Karate Kid, Jerry Maguire, Touro Indomável, Doze Homens e uma Sentença, etceteras infinitas.
Veja bem, não tenho a intenção de criticar os filmes, pelo contrário, quase todos os supracitados são bons, mas são estrelados por homens. Alguém já imaginou uma versão feminina do Falcão (Stallone)? Quando viro o meu colar eu penso no meu caminhão!
Fato é que existem exceções e querem saber, as tais são as melhores, de mais alto nível cinematográfico. Ainda que tenha existido a Dama do Lotação aqui nos trópicos, junto com Tieta do Agreste e as insuportáveis Helenas de Manoel Carlos, houve alguém que nada mais fez durante sua carreira do que dar voz às mulheres. Esse sujeito se chamava Ingmar Bergman. Em minha opinião interesseira trata-se do mais genial de todos os cineastas. Não que todos os outros não fossem bons, mas Bergman tem uma essência distinta. Por isso, uso esse meu ínfimo espaço, de raros leitores, para lembrar do que não pode ser esquecido. Persona, Gritos e Sussurros, Morangos Silvestres, Sétimo Selo, Cenas de um casamento, Da vida das marionetes, Fanny e Alexander são filmes imprescindíveis para todas e todos aqueles que gostam de cinema e que, por acaso, apreciam o pensamento.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A lista do mês!

Foto by Gui, Rio de Janeiro

Bom, na falta de qualquer criatividade mais honesta e na ânsia de não deixar o blog sem postagens no mês, resolvi criar uma dessas listas que todo ser humano tem direito de fazer um dia... (os referidos se devem às minhas porcas experiências dos últimos dias)!

Os aplausos

1. Ao divertido Mendonça, personagem da Grande Família, mais especificamente, ao ator Tonico Pereira. Na minha humilde opinião trata-se de um ícone do enlatado, o anti-herói e bravo defensor da vida boêmia!

2. Aplausos para a mostra de filmes do Canal Brasil que começa dia 9 de outubro, sempre às 00:45: " Um certo olhar francês". A mostra trará os grandes clássicos do cinema europeu com destaque para o "Acossado" e La belle de jour"!

3. Aos vinhos brasileiros, especialmente aqueles produzidos no Vale do São Francisco. Graças aos amigos entendidos pude descobrir as maravilhas dos lados de cá. De lá e de outras regiões, destaque para o espumante Pericó e Rio Sol rosé. Como já disseram e não sei quem foi: é a verdadeira felicidade engarrafada!

4. Aplausos para o rebento honesto, o competente Diogo Nogueira. Não bastasse a origem, o danado faz um som excepcional, digno que quem aprecia o samba inteligente da família. Escutem o seu: "Tô fazendo a minha parte", vale muito! O timbre é do pai e o resto é do filho!

5. Quanto aos livros dois aplausos um pouco atrasados eu confesso: "Ms. Dalloway" e "A mulher de trinta anos". Virginia Woolf e Balzac são mais próximos do que imaginamos. Grandes mulheres e seus eternos conflitos. Até parece que estou num espelho, daqueles do velho João Nogueira!

6. Outra dica de vinho, o "Concha y Toro", Sauvignon blanc, reservado (2004). Custa pouco, traz felicidade e prazer por apenas 17,00 reais a garrafa... Leve, harmonioso e amigo, uma garrafa por cabeça.

Vaias:

1. Ao campeonato brasileiro que de tão ruim consegue quase empatar cinco times na reta final. Prá mim o Palmeiras vence, apesar de... (já viram a tabela?). Minha maior premunição é quanto ao Atlético Mineiro (termina entre o quinto e sétimo lugar... jogos difíceis pela frente).

2. Vaias para mais uma novela do nosso velho conhecido "Manoel Carlos": Viver a Vida! Como diz o meu grande amiguinho Adnet: "Cara, a vida é boa demais, larga essa novela e vai viver a vida...". Grande porcaria.. Apartamentos de 10 milhões, Paris, amor, traição, periferia bandida... Cá..cá...cá. É sério? As vezes me pergunto. O pior é que é!

3. O preço do queijo. Quem é dona ou dono de casa já deve ter percebido. Um simples queijo minas está custando a bagatela de 25,00 reais o quilo, acreditam? Deixei de comer queijo, troquei pelo patê de atum com maionese...

4. Vaias pra aquela mocinha bunita e loirinha que apresenta o Video Show (ruim coitada); Vaia pra reforma que estão fazendo no 204 (eu moro no 104, entenderam?)!, Vaia para todos os deliverys que não entregam no Padre Eustáquio (Habibs, Mac donalds, restaurantes da Zona Sul e cia) e uma vaia bem grande para o único restaurante que existe perto da minha casa: comida ruim, cheio de gente mal educada e sem qualidade.. ai jesus.. alguém sabe de um apartamento pra alugar?

domingo, 6 de setembro de 2009

Censura

Caros e raros leitores, há uma semana postei uma conversa sui generis e verdadeira no blog e acabei deletando neste extao momento. A explicação é que um imbecil que preferiu não se identificar fez comentários tão inúteis e imprecisos que resolvi poupá-los de tamanha burrice. Bom, isso não significa que o blog não esteja aberto à discordâncias. Porém prefiro não disseminar implicâncias infundadas de pessoas conhecidas e ressentidas. Ok? No mais, continuamos nossa brincadeira de sempre...

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Lei antifumo






Na minha longa lista das "coisas irritantes" consta, ultimamente, a hipocrisia do Estado de direito brasileiro que insiste em nos fazer engolir a qualquer custo o coronelismo disfarçado de bem estar comum. Temo que daqui há a um tempo seguranças de saúde, da famosa SS, saiam de fumante em fumante pregando adesivos de nicotina no pescoço, para o bem deles, é claro. Estou quase de acordo com a lei antifumo, mas proibir que estabelecimentos particulares separem espaços para os fumantes é absurdo. Os defensores da lei nesse quesito se defendem:
- Estamos pensando no bem dos próprios fumantes... (quase dizem: "eles ainda vão nos agradecer por isso"). Estou escutando Jesus? o imbatível ícone das virtudes? - Perdoe senhor, eles não sabem o que fazem.
- Por caso, algum fumante foi até o seu deputado e pediu para ser protegido de sua própria escolha? Alguém conhece esse infeliz? Não estamos falando de uma droga ilícita, mas sim de um produto que a sociedade de consumo sempre fez questão de relacioná-lo ao glamour e ao poder. Tudo isso foi feito em milhares de campanhas publicitárias e filmes hollywoodianos e o Estado sempre lucrou com as vendas dessa vedete do charme burguês e dos intelectuais. Esse mesmo Estado agora proíbe os antigos clientes de escolher pelas suas próprias vidas. Não sou nem contra nem a favor do cigarro, mas é nítido como as mais autoritárias regras são impostas ao cidadão com a desculpa do bem comum. Só queria que o legislativo pensasse mais antes de aumentar a constituição.
Oh lugarzinho engraçado esse nosso Brasil. Se uma mulher procura o serviço público para fazer um aborto ela terá algumas respostas possíveis:
- Não
- Isso não é o melhor para você!
- Se continuar com essa idéia você pode ser presa!
Se ela procurar uma igreja católica, deve ouvir o seguinte:
- Não
- Isso não é o melhor para você!
- Se continuar com essa idéia você pode ser excomungada!
Sem ajuda do Estado e da Igreja, antigos amiguinhos sórdidos, ela procura uma clínica clandestina com descontos progressivos e escuta:
- Sim
- São 500 reais agora e mais 500 no final.
- Volte sempre!
O que ocorre, na minha opinião, é uma ditadura das ações virtuosas. E eu desconfio que essa conversa de virtude é quase sempre definida ou pela igreja ou pelo Estado. Com tudo isso tenho que ouvir as palavras repugnantes nos jornais: Sarney, Edir Macedo... Prevejo um futuro negro, trevas total, como dizem os adolescentes! Manchete dos jornais de algum dia:
Novas proibições engrossam a lista da liga da justiça:
-Proibido o suicídio (se mal sucedido, a pena é de cincos anos amarrado na cama);
-Proibido ter inimizades (a pena é de ser abandonado pelos amigos);
-Proibido os blogs de oposição.






segunda-feira, 27 de julho de 2009

A Poços de Caldas que eu vi

Foto by Vê

Durante certa época da vida tomei conhecimento das idéias pessimistas. Logo vieram os bordões aplicados ao cotidiano: "a vida é um fardo", "é um negócio que não paga seus custos," "a felicidade é a ausência de sofrimento" etc... Também conheci meus companheiros de luta: Pessoa, Machado de Assis, Caio Fernando Abreu, Sterne, Cartola... Continuo admirando a prosa dos chegados, talvez porque para eles o pessimismo era somente o ínicio da conversa, motivo de arte e no fundo o tratavam como variação sobre o mesmo tema que é a vida! Já quando se tratava de filosofia tudo era bastante fundamentado e parecia fazer mais sentido a cada desilusão da vida madrasta. No entanto, por melhor que fosse, enquanto consolo na miséria, o pessimismo apresentava uma importante falha ao ignorar os incontáveis exemplos da vida ordinária que desmentem o tempo todo os adágios moribundos. Schopenhauer que me perdoe o entusiasmo, mas se os níveis de serotonina não estiverem em baixa e os óculos forem bem ajustados é mais que possível ver a vida com leveza. (segue um exemplo vivo abaixo) Não sei se a alegria pode ser a melhor fonte da boa arte, o contrário parece mais provável. O lugar comum é o da desgraça, mas existem bons roteiros que preferem dizer um "sim" à existência. Assim, entre a desgraça e a abulia, entre o "never more" e o "happy end" deve haver um modo mais realista de ver a encenação.
A propósito do assunto, acabo de voltar de uma viagem revigorante. Os quatro dias em Poços de Caldas confirmaram a posição defendida logo acima. Cidade muito charmosa e bem cuidada que compensa o esforço em percorrer os quase quinhentos quilômetros que a separam de Belo Horizonte. Não bastasse as belezas naturais e a arquitetura da cidade (relato esse que deixo a cargo do geógrafo), conheci algumas pessoas interessantes, gente da maior e da menor valia. Aqui assumo o direito de emitir juízos de valor que, por mais fortes que sejam, a mim não me parecem exagerados. A de maior valia é mulher, mãe, viúva e professora aposentada. Tem as posições mais inusitadas para o seu perfil. Quem apenas lesse suas credenciais, as tais apresentadas por mim, dedicaria-lhe certos adjetivos. Dentre eles vejamos os possíveis: conservadora, pacífica, amável, avessa à mudanças, dedicada, preocupada e moralista. Alguns desses termos lhe caem bem, outros nem tanto. De alma leve e com muita estrada percorrida, se abstêm de qualquer julgamento moral ou se o faz logo em seguida solta uma risada indescritível que ameniza sua perspectiva, como quem dissesse: "talvez seja isso!".
O seu valor está exatamente nessa incerteza e na tolerância que dela provêm. Ao não adotar posições extremadas permite a aproximação de outras perspectivas, não sem ironia é claro. O bordão da sua existência, no meu modo de ver, é o deixar viver, não sem crítica ou reflexão, mas com a tranquilidade de quem só se preocupa com está em seu alçance. Para celebrar o contraste com tudo isso me esbarrei com uma pessoa de menor valia. De burrice incontestável e estado de consciência alterado somente conseguiu mostrar sua intolerância e decadência. Por motivos retóricos e a fim de não estragar o relato de hoje, encerro logo a descrição da alma rastejante. Continuo e já vou terminando. Poder perceber as coisinhas da vida, boas ou ruins, é privilégio de todos. Só pelas chateações já vale a pena correr o risco e defenderei essa posição até ter a certeza de que depois da morte vão me encaminhar para o paraíso... ou para uma cidade como Poços de Caldas.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O delivery é coisa do diabo!


Deus abençoe as segundas-feiras, além dos outros dias em que posso ficar em casa sem obrigações a cumprir. Todo ser humano precisa se trancafiar na preguiça de vez em quando e abrir o portão de casa apenas para atender o delivery. Há algum tempo atrás, assolada pelo mal do século, não suportava o ócio e mal podia pensar na possibilidade de ficar só. Era mesmo um estado anormal. Hoje defendo que existem poucas coisas melhores do que ficar sozinha, munida de internet, seriados enlatados, filmes que você tem na estante e nunca viu, comida pronta and some other things! Trata-se de um contexto adequado à criação, ao descanso e ao mais puro egoísmo. Não aproveitei o dia para arrumar a casa, organizar papéis, resolver problemas, nada, absolutamente nenhuma tarefa considerada útil pelas pessoas de bom senso. Como não tinha nenhum plano para hoje, acabei deixando a vontade me levar e olhem só: assisti The Godfather e Obrigado por fumar, dois episódios da Família da Pesada, o jogo da seleção brasileira, li um texto fantástico na revista Piauí deste mês, comi pão com salsicha e guaraná enquanto via Bob Esponja, desci na portaria duas vezes e enfim me enterrei na internet. Diante da experiência, da liberdade não resisto ao pecado de alfinetar a tradição: não é que Deus estava certo? O tal do trabalho (do latim tripalium, instrumento de tortura) não é mesmo um castigo mortal? Como podemos ver no seu mais famoso best seller, na questão das origens, Deus sopra no ouvido de um profeta que dispara a sentença: "maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida." (Gênesis, 3.17).

terça-feira, 28 de abril de 2009

Reflexões sobre o clássico!



Há algum tempo aprecio o futebol. A bem da verdade, desde muito pequena e influenciada por meu pai, aprendi a nomenclatura pra lá de difundida do esporte por excelência do nosso país. O primeiro grande jogo de que me lembro foi a amarga derrota da Seleção Brasileira para a Argentina na Copa do Mundo de 1990. Oitavas de final e sucumbimos diante do cabeludo Caniggia. Felizmente, nos dois anos seguintes tive a felicidade de ver o Cruzeiro campeão da Super Copa da Libertadores. Em 97 ainda pude conferir o Celeste levar a própria Libertadores contra o Sporting Cristal do Perú. Pois bem, foi a geração de Palhinha, Nonato e Dida que me convenceu, além do fanatismo de meu pai, a adotar a camisa azul e branca como paixão incondicional. Querelas a parte, penso que o futebol tem muito a nos dizer. São metáforas valiosas para a compreensão das coisas da vida. Inspirada por essa aposta e saudosa de minhas escolhas futebolísticas, resolvi discorrer sobre o clássico dos gramados mineiros. Ontem, dia 27 de abril, assisti ao clássico do meu estado, Atlético e Cruzeiro. Apesar da empolgação cabe aqui um juízo filosófico acerca do jogo. Adiantando o grand finale, ganhamos por cinco gols de diferença. Porém, o crucial da partida não foi a goleada. Apesar do supremo prazer causado aos torcedores, a chuva de gols somente refletiu um outro ponto mais interessante: o estilo do time. Se de um lado víamos um técnico tentar estratégias bizarras de organização tática, de outro podíamos notar a tranqüilidade de quem sabe o que é. Parafraseando Nietzsche: gelo liso é um paraíso para quem sabe dançar! O controvertido Adilson Batista escalou sem mais problemas o seu time tradicional no esquema 4.4.2. que se transformou rapidamente naquilo que a equipe precisava devido à flexibilidade e excelência dos seus jogadores. Já Emerson Leão tirou da cartola a pretensa solução para o Atlético com seus quatro volantes e Júnior, a estrela solitária na ponta esquerda. Teve quem pensasse que daria certo. Com a vantagem de dois resultados iguais, um empate seria primoroso saldo para o Galo. Com a marcação cerrada no meio, o Atlético seguraria o meio cruzeirense e numa sobra de bola oportuna Júnior colocaria Tardelli na cara do gol. Pois é, no papel até funciona, mas Leão esqueceu de verificar a qualidade de seus jogadores e a capacidade de avançar ou recuar com qualidade na hora oportuna. Para o torcedor que escuta a formação tática do seu time, parece mesmo que o esquema pode funcionar. A questão é de um lado o meio era formado por Ramirez, Wagner, Fabrício e Paraná e do outro lado do Mineirão tínhamos Carlos Alberto, Márcio Araújo, Renan e Rafael Miranda. No Atlético ainda havia um “homem surpresa” solto, à frente do meio, Lopes “inexistente” de Tal. No papel, o estilo do jogador não significa muito, mas é no campo que a excelência define a pendenga. Para aqueles que viram o clássico de domingo fica a certeza de que o meio cruzeirense é de mil e uma utilidades; sabemos que Ramírez marca e arma as jogadas como ninguém; que Wagner, nosso meia-armador, sempre volta e busca a sobra junto com os volantes; Marquinhos Paraná, disciplinado e estável, não se furta aos lances na lateral e, por fim, Fabrício, coordenador da defesa intermediária, tem uma mania irresistível de passar o meio de campo. Vá lá, o Cruzeiro está longe do carrossel de Cruyf, mas lucramos muito com a tal flexibilidade dos jogadores. A retranca do Atlético teria até funcionado se do outro lado não tivéssemos jogadores de grande qualidade técnica e entrosamento. Cabe aqui a pergunta: qual é melhor estratégia? Defesa ou ataque? Partir para a definição ou esperar e reagir? Aqui já não falamos mais de futebol, mas de questões existenciais: qual é o melhor modo de vida? Jogar com o regulamento nas mãos nem sempre é a melhor escolha, basta nos lembrarmos de 2007 e da vigorosa e humilhante vitória do Galo contra o Cruzeiro. A questão é mais antiga do que podemos imaginar. Um herói, dotado de areté (virtude) não entra em comparações. Ele é aristoi, excelente, virtuoso em qualquer intempérie. O melhor naquilo que faz zomba do adversário como zombaria de uma criança. O que está em seu peito não é a exigência burocrática da vitória, mas a naturalidade com que se sobrepõe sobre seu adversário. Assim o fez o atacante Kléber, imitando uma “galinha” e o “chorinho” do time alvinegro. Obviamente, cristãos que somos, repudiamos a iniciativa bélica do jogador. Diferentemente dos gregos, somos obrigados a engolir a exigência do fair play. Definição nossa: Fair play significa ganhar, porém não tripudiar. Como se o futebol fosse apenas um esporte técnico, isento das paixões e os jogadores apenas autômatos em campo. Ora, para o torcedor que se vê representado por seus onze jogadores nada mais catártico e prazeroso do que a desforra. Tal como fez Aquiles contra Heitor, o time azul criou a sua própria maneira de encenar a via-crúcis do adversário. Ontem, fomos certamente os soldados romanos, independente da moral ou do bom-senso. Como em um teatro grego, o público vibrou sentindo-se renovado e vingado de todas as provocações extra-campo. Isso é o futebol, caros senhores, feito de dribles, provocação, demonstração de superioridade e de alegria. Kléber deveria ter dito: desculpa meu caro Juninho, não queria ter feito o gol, mas não pude evitar, sinto-me culpado! Ora, eia, deixemos a hipocrisia de lado e aceitemos as regras tácitas do jogo ou então mudemos a preferência nacional. Que tal uma sóbria partida de xadrez?

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Causos de família.


Outro dia desses conversava com meu pai sobre as coisas da vida quando ele tirou da cartola a seguinte frase:
- Minha filha, "tapar o sol com a peneira" não é bom negócio.
Curiosa com o porquê da estória fiz cara de interrogação e ele completou explicando:
- Por que dá um xadrezinho terrível!
Esse é meu pai (risos)!!!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

O caminho

O caminho, by Gui


Vindo do supermercado, em saudável caminhada pela Via Expressa, fui surpreendida por um estranho fenômeno. Tive a nítida sensação, pela alma e pelo corpo, de viajar no tempo. Em poucos segundos voltei para um passado de data incerta, mas de experiência vivida. Costumo ter essa sensação quando mudam as estações. Hoje foi a vez de o outono levar-me a reviver, através do cheiro do ar, do cinza do céu e do vento forte, algo que a minha memória não podia acessar por esforço intelectual. Se não me engano, acabo de viver o que Proust chamou “memória involuntária” em sua Recherche. Considerando que eu tenha partilhado da experiência proustiana, o que isso pode significar? Não sei ao certo. Qualquer registro sobre um fenômeno não-discursivo se dá por pequenas aproximações e metáforas. À primeira vista, me parece que o tal fato pode ser visto como uma transcendência do vivido, oposta às pretensões estritamente racionais de decifração do mundo. Quero dizer, um fenômeno que vai contra a idéia de que a consciência basta a si mesma. Qualquer método científico aqui não teria vez, já que o ocorrido é alheio à vontade e não-mediado pelo discurso. É como se estivéssemos o tempo todo diante de hieróglifos e “cifras” que somente se revelam por um conjunto indeterminado de fatores e em momentos não esperados. Os hieróglifos não têm uma significação universal, pelo contrário, são tão particulares e subjetivos que só podem ser captados por uma série de lembranças que nem mesmo o indivíduo sabia que lhe pertencia. Meus quinze anos, na saudosa Divinópolis, que ainda não é “apenas um retrato na parede”, vieram de uma só vez, através de múltiplas sensações estranhas à razão. Parece que a lembrança involuntária, através de mecanismos extra-discursivos, ou seja, por um atalho desconhecido no caminho, nos leva a pensar acerca de uma busca que é nossa velha conhecida, a busca pelo eu, ou melhor, pela resposta à pergunta: que sou eu? Já adianto que a solução de Descartes não é suficiente para o caso em pauta. Sou uma coisa que pensa, sente e cuja memória, da qual não tenho total controle, faz vir à tona os mais intrincados segredos. A Busca do Tempo Perdido é a própria busca de um “eu” cambiante, como gostava de dizer o caro senhor Montaigne. Uma das vias para a resposta também não se deixa apreender totalmente, mas nos dá uma pequena amostra do que seria a delirante experiência do completo conhecimento de si.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O amor, amizade e outras coisas que valem a pena!!

foto by Vê

É finda a quaresma, tempo de reflexão dos cristãos!!! Que bom ser cristão, são apenas quarenta dias de reflexão, ou seja, um pouco mais de 10 % do tempo anual. Quem me dera esse luxo. A cabeça dos meus pares não pára, nem nos sonhos. Depois de uma aula cansativa, é hora de pensar as coisas boas e quiça pecaminosas da vida! Fiz 27 anos há menos de um mês e, para falar a verdade, pouca coisa mudou. Continuo teimosa e à procura!!... Como um velho amigo meu, continuo à procura... sem objeto, sem destino. Em verdade, considero-me com dois anos de idade, de vantagem ou de sofrimento. Como dizia nosso caro Schopenhauer: "a vida é um negócio que não cobre seus gastos". Hoje a Cinelli me fez voltar a escrever, uma amiga. Caros leitores raros ou inexistentes, falar de si mesmo sem ser piegas e limitado é o desafio dos desafios! mais difícil que final de libertadores! Montaigne bem o sabia. Meu amigo Thiago sempre escreve, ele está bem afastado desse meu tédio e incapacidade. Se eu soubesse me fantasiar de ficção!!! mas ainda não peguei o jeito, nem sei se um dia o terei. Enquanto isso, ensaio meus sentimentos, meio maneta, sem jeito... Preparo um escrito sobre as mulheres, espero que venha logo. Inté.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Compulsividade: estudo de caso, o carnaval!

foto by Vê



Caros leitores inexistentes, hoje estou compulsiva, preciso escrever. O remédio não faz mais efeito e não consigo dormir. Pois bem, vamos ablar sobre o carnaval, sobre a porcaria do carnaval. Durante o ano todo temos quatro dias para jogar tudo pro alto e sucumbir a Dionísio. Pois então, vou ficar em BH. Me diz qual Deus eu devo revenciar: à ordem beneditina? Nada a fazer, absolutamente nada a fazer. Todos perdem a razão, usam roupas coloridas, vão à desforra e eu, por vingança, vestirei preto, cinza, marrom... Escutarei música clássica e no almoço servirei salada! Serpentinas? Só se for da cerveja, porque essa meu bem, ah, essa eu mereço tomar, todas inclusive!! O que é um bêbado sozinho? É como um quadro do Picasso que nunca foi visto. Não tem graça, mas ficarei, eis o meu propósito. Ficarei bêbada vestindo preto e marrom, escutando um belo adágio ou quiçá um réquiem escatológico... Farei um estoque, é melhor não brincar com esses assuntos. O bar daqui de perto pode estar fechado. Decisões tomadas, agora é esperar. Vejamos quantas postagens vai render esse carnaval reprimido.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Defesa ou indefesa?

Cão, foto de Vê


Dia 13 de fevereiro, às 14:00 horas descobrirei!!! Foram três anos de espera, muitas mudanças, poucas em essência, a maioria dizia a respeito à forma. Meu objeto é um velho e conhecido amigo: o senhor Platão. Para quem começa agora, uma dica: escolham alguém menos famoso, oh trabalho que deu falar alguma coisa que já não tenha sido dita! E querem saber: não digo nada de novo, mas tenho um orgulho: a forma e a letra são minhas. O caminho para chegar ao "mesmo" é somente meu. Nestes três anos vários elementos me acompanharam: os amigos, os amores, viagens, noites vazias, noites alegres, vícios e virtudes. Acho que fiz um produto razoável do que me aconteceu. Platão? Somente um pretesto! Mestrado? Um rito de passagem! Fica a lembrança dos tais elementos.. Descobri algumas coisas, como, por exemplo: que um plano só existe para não ser cumprido; que um ponto de vista nunca é original; que existem aqueles piores e muito melhores que você; que ser mediano não é tão ruim assim; que a vida importa mais que os títulos; que os títulos fazem falta quando você menos espera...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sobre a morte

Noite, foto de Vê


A morte, além da simples putrefação, é que pode levar o homem a refletir sobre a existência. Ela, que parece ser um fato, perde-se em finas nuanças quando colocada diante da finitude. O fato da morte vale mais pela sua espera inglória e certa do que pela perda efetiva dos sentidos e o apodrecimento da carne. Eis a questão, o dado material torna-se quase rarefeito diante do sentido atribuído a vida. Não se diz: perdi um conjunto de células e tecidos, mas: perdi um amigo! É diante de uma caveira que Hamlet chega ao nível mais profundo do pensamento. "Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre / Em nosso espírito sofrer pedras e setas / Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja, / Ou insurgir-nos contra um mar de provocações / E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais. / Dizer que rematamos com um sono a angústia / E as mil pelejas naturais-herança do homem: / Morrer para dormir... é uma consumação Que bem merece e desejamos com fervor [...]" 3.1.108. Hamlet. Montaigne, um filósofo que dedicou à questão da morte dois de seus Ensaios, viveu ele próprio, a experiência dolorosa e profunda que deu origem a uma mudança fundamental de sua vida: a morte de seu melhor amigo, Etienne La Boétie. Perguntado sobre o porquê de tamanha amizade e afeto, Montaigne respondeu: "Parce que c'etait lui" (Porque era ele). Parce que c'etait moi" (Porque era eu). A experiência diante da morte tem a singularidade de despertar um outro problema, o significado dos parcos dias que se vive. Entre os gregos a alegoria da morte tinha outro significado. A mãe de Aquiles preferiu uma vida curta e gloriosa para o filho do que vê-lo passar seus dias na inteira mediocridade. Não sei se optaria pelo mesmo caminho, certo é que as vidas curtas e bem orientadas entram para o livro das coisas que merecem ser contadas. Nascer, crescer, procriar... não é matéria de um romance. Nascer, lutar e fazer algo de ti impor-se ao mundo, isso vale a pena não esquecer! Portanto, vive-se bem, mesmo que pouco; vive-se de modo mediano, embora a morte chegue apenas aos 90 anos. Não queiramos tudo: vida longa e gloriosa! Outra questão se insurge: o que é viver bem? Qual o melhor modo de vida? Meus caros, talvez seja este o cálculo mais difícil, a ponderação mais auspiciosa. Cuidemos de nós mesmos! A tarefa é semelhante aquela de Sísifo, inglória, porém necessária para quem já a iniciou. Seria um castigo a finitude? Saramago pensou sobre isso ao escrever seu: Intermitências da morte. Segundo nosso autor, a morte resolvera entrar de férias, sem tempo para voltar. Como fazê-lo? Sem a morte, como proceder? Será a vida dotada de mesmo sentido e valor se ela, a carrancuda, não existisse? De Homero a Woody Allen, é possível não pensar no fim? A pesquisa inspira cuidado e método, continuamos a conversa depois!

sábado, 13 de dezembro de 2008

2009- Azul



Segundo as sábias máximas de ordem mística, 2009 será o ano das grandes parcerias, isso porque 2+0+0+9 é igual a 11. Por sua vez, a soma de 1+1 tem como resultado o número 2. O argumento é forte, irrefutável. Não se duvida do cosmos. Ouvi essa explicação pitagórica de uma “estudiosa” do mundo astral. No fim do ano vale tudo, desde o panetone intragável até as numerólogas. Conjecturas e previsões estão liberadas pela crítica. Realmente gostaria de saber o que significa “ano das parcerias”. Creio eu que o crime organizado fechará bons negócios entre os seus pares. Talvez os casamentos e namoros fracassados ainda perdurem em 2009, em nome do número 2 e das parcerias. Sofrimento para uns, alívio para outros. Os sacerdotes modernos não são nem um pouco modestos. A bem da verdade os sacrifícios diminuíram, exceto o maior deles: agüentar os tarólogos e intérpretes dos astros. Cheguei a fazer meu mapa astral, mas me decepcionei, parece muito amplo e feliz. Crendices a parte, cultivo alguns rituais. Jogar papéis inúteis no lixo, fazer promessas impossíveis, enfim, esperar milagres que não virão. Ser mais prudente, ter um cadinho de bom senso, não gastar todo o dinheiro com os amigos em volta de uma boa mesa etc... Como tudo é permitido na presente data, inclusive os truísmos mais piegas, vai minha lista:

Não aceitar convites por educação e nem ser educada quando é desnecessário;

Frases menos impactantes e amizades menos inúteis.

Voltar à academia e me lembrar das refeições.

Acalmar o coração, mesmo que superficialmente.

Doar meus periquitos que me entediam e sujam o chão que não quero limpar.

Ver o mar

Beber menos e melhor, em boas ocasiões, se e somente se estiver ao lado dos meus pares.

Como meu ano é o 5, investir nas roupas azuis.

Enfim, gastar todo o meu dinheiro com os amigos em volta de uma boa mesa!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Diálogos com meu amigo Darim!



Façamos uma aposta: Cada um é o que pode ser! Mesmo que não mais acreditemos na idéia de “natureza moral” sobra-nos aquela impressão de identidade e constância perceptível no outro. Quando a regra não resolve as pendências nos surpreendemos – “como pôde agir daquela maneira?”. Assim fazemos uma espécie de catálogo de caracteres, criamos os tipos morais com a nossa medidanada universal”. E como falhamos nesta tarefa! Falhamos a todo o momento. Nosso método não é nada científico, a não ser pela capacidade que temos de criar os conhecidos argumentos ad hoc. Julgamos, sem reconhecer que julgamos, e mesmo quando dizemos: “isto é um fatoainda fazemos julgamentos, mais ou menos precisos. A consciência, produto quase sempre nascido de nosso auto-engano, estabelece as distinções do julgar. Isenção, experiência, espírito apurado, noções avaliativas bem delineadas e boa-fé são os elementos necessários. Problema posto: estas são as noções mais incertas que poderíamos forjar. Sua permanência também é um efeito da consciência, um estado aparente de coerência e estabilidade. A parte tudo isso, julgamos. E porque não o faríamos? Entre os juízos alguns se destacam. O juízo vacilante diz – tenho certeza de que é assim, como poderia não sê-lo? O juízo cético prefere dizer – pode ser que sim, pode ser que não. O juízo tirânico ataca – está provado que sim e isto é um fato. O juízo parcimonioso dirá – parece-me que esta é uma solução razoável. O juízo filosófico volverá contra todos a seguinte observaçãosob todas as perspectivas mencionadas, a do vacilante, do cético, do tirânico e do parcimonioso, há um conjunto de pressupostos morais que faz com que seus posicionamentos digam mais deles próprios do que do fenômeno em si. O objeto pesquisado? Ah, este é somente um ponto em comum para o desfile de suas vaidades! Boa interpretação? Ou mais um juízo particular? Os dois. E porque não podemos juntar palavras como: verdade e experiência pessoal? Porque ainda devemos tributos à metafísica e à modernidade a ponto de aceitarmos como indubitável o afastamento entre a experiência e a noção de verdade? Falando de si, desde que apurada a forma, falamos do todo. Montaigne é o nosso argumento de autoridade. Antes de Descartes e tão pós-moderno! Dizia o fidalgocada ser humano porta em si a forma universal da humanidade. Estendendo a conclusão à questão inicial podemos dizer – julgando a partir de si, desde que apurada a forma, julgamos bem! Se o “si” pode ser medida de verdade e talvez a única medida, vale a pergunta: não terá o homem que conhecer-se profundamente? O fenômeno do vivido e a sedimentação do caráter não deveria merecer o mais alto posto nas conversas filosóficas? Porque se a minha experiência é a medida do meu juízo vale a equação: quanto mais rico é o meu viver, mais rico será o meu julgar. Enriquecer o vivido não é tarefa da filosofia. A ela cabe a potência reflexiva sobre o vivido, mas não a matéria do mesmo. A arte sim, esta pode conferir traços mais dignos às misérias existenciais. Viver como se fôssemos uma obra de arte inacabada cujo final não poderá ser por nós contemplado. Diante da morte a obra é apresentada aos outros e será grandiosa ou vulgar, a depender da forma tomada até então. Diagnóstico cruel? Talvez, verdade necessária! Tomar-se a si mesmo como um fenômeno estético, digno de ser percebido, penso que eis a tarefa maior. Ter consciência que aquilo que aparece é tudo que temos, porque tudo nos aparece de alguma forma. Para além da aparência apenas há uma outra aparência da essência percebida. Desfeito o dualismo o que sobra? O efeito, a superfície, a escritura, o aparente. E nem todas as aparências se equivalem, existem as nobres e as vulgares e entre uma e outra cor uma gama infinita de matizes.

Rapidinhas dogmáticas!



Espasmos



Não seria a depressão aquilo que os antigos denominavam como “melancolia”? Certo mal estar nauseante que faz o homem trocar tudo que é ativo e está em movimento pela apatia do sono ou da reclusão? Certo sorriso amarelo para a vida, olhar de gato quando acorda, como se dissesse: grande coisa estar aqui! Será que tal melancolia tem a ver com o modo de vida que levamos? Burgueses apáticos. É o que sugere Buñuel em seu Anjo Exterminador. Sair para que? Para onde? - vamos ficar, aqui é mais seguro. A pura falta de energia e força para o novo. Isso o velho Nietzsche já o sabia: o homem moderno não sabe sair nem entrar.



Talvez desse não-saber-o-que-fazer tenha origem a imensa quantidade de quinquilharias que inventamos ao nosso redor. Adornos que devem dar sentido, preencher os vazios, sempre mais fundos que qualquer tentativa. Alguns menos fundos se contentam, para os outros existem quinquilharias gigantes. Para o homem que se sabe vazio é preciso outros preenchimentos, mais sutis, mais autênticos. A escrita é um deles.



A escrita é patética, interessada e terapêutica. O verdadeiro escritor não escreve para os outros, escreve para si, purgando-se de tudo que o sufoca, prende. Outras escritas feitas para informar, formar, instruir, advertir, essas e todo o resto se dividem em duas classes: retórica e manuais de auto-ajuda.


Quem é o leitor? Nenhum compromisso tenho com os leitores, talvez nem chegue a ter um deles algum dia. Quando conserto uma frase ou tento escrever de maneira mais inteligível faço-o por mim mesmo, com o único interesse de que a idéia que se passa naquele momento em minha mente não seja mal expressa através das palavras. Quem escreve para o leitor constrói discursos, sempre adequados a uns e antipatizados por outros. E o que isso tem de importante? Agradar ou desagradar não me interessa.



A vida interior de cada um é, para o próprio indivíduo, a única coisa digna de verdadeira preocupação. O modo como se vive também é a única matéria realmente importante a se pensar. Por último, o significado da morte é tão somente o assunto que mais nos leva a mudar nossas vidas.



Quem somos nós? Ganhamos muito se descobrirmos o significado ou pelo menos alguns traços do próprio eu, ao invés de totalizarmos as experiências singulares assumindo compromisso com qualquer axioma da natureza humana. A tentação de generalizar é tão grande quanto é comum a preguiça de afirmar categoricamente o relativismo absoluto. Tentando ficar entre o lá e o cá, ainda assim, não ganhamos muita coisa. Talvez voltemos a investir nos manuais da Corte como os de Pascal ou Gracian. Talvez a leitura do dia seja: Os Caracteres Humanos, do Conde de La Rochefocault.



Estão tentando matar o Eu, depois de matarem, ou tentarem matar Deus, o sentido, o autor etc... Ou será que conseguiram e “eu” ando, por assim dizer, iludida de mim mesma? Anyway, prefiro acreditar que ainda sobrevive alguma identidade ou pelo menos a sua ilusão. Qual a diferença entre a existência factual e a existência imagética? Para os equívocos mais variados isso não importa muita coisa. Além do mais, brincar com a morte do “eu virou uma tendência cult (Shakespeare não podia imaginar que o tataraneto intelectual de Hamlet escreveria uma tese de doutorado).



- Estou fora de órbita; - não vejo sentido no mundo; - tudo é perspectiva; Sem considerar a validade destas frases percebe-se o quanto elas caíram no gosto do povo. Ai de quem não admitir a perspectiva em meios acadêmicos. Inventamos a estética da melancolia e do niilismo. Construímos discursos sobre o não-ser a todo o momento como se isso fosse muito simples de digerir. Ao mesmo tempo em que bradamos o fim da verdade, marcamos a consulta no psicanalista e corremos atrás das receitas de medicamentos antidepressivos. Estou enganada ou sobraram parafusos na montagem da estante? Será mesmo que sabemos, vitalmente, sobre tudo que dizemos? Mais um ponto: será que queremos a vida que contamos ou fingimos que aceitamos para entrar na ordem do “normal”. É pelo desejo de normalidade que enlouquecemos? Paradoxal isso.



A questão continua: trocar a tradição pelo quê? Se a questionamos algum dia é porque a velha matrona cheirava mal a alguns narizes mais sensíveis, disso não duvido. O que pergunto é: o quê colocamos em troca? Alguns mais ferrenhos me diriam: não queira nada em troca, mulherzinha! Desculpe minha mesquinharia feminina, mas prefiro um urubu na mão, cheirando mal e me fazendo companhia do que duas andorinhas amarelas no horizonte. Falo por mim, mas não almejo só a minha pessoa, solidão é uma casca dura demais para vestir e ainda suportar o mundo.



Algumas coisas nesse novo paradigma me favorecem. Não poderia ser acusada de “incoerência”. Retoricamente falando, eis um bom argumento. Mas eles não abandonaram o princípio da não-contradição. Seria deixar a mala mais importante para trás. Até os perpectivistas, dentro de um corpo de explicações particular, precisa do princípio. Como disse, penso que é uma questão de estética, há um prazer em afirmar o nada. Há um prazer em se sentir superficialmente no fundo do poço.