
Dos existentes, era mistura de todos os elementos irreconciliáveis. Dentre tensões não havia quaisquer promessas de alívio, sem compressas, menos ainda qualquer remédio amargo que as solucionassem. Não de uma vez só, não definitivamente. Descansos sobrevinham, mas somente no vez em quando da vida crua. E assim era e foi até o dia da inevitável morte do pouco que era vivo. Morre-se lentamente, quase sem perceber o cheiro acre do não funcional, do que não serve, do que sobra e ninguém mais percebe como transcendência. Morre-se sem público e epitáfios, com raros aplausos dos pares que, se ainda vivem devem deixar de sê-los, ao preço irrisório de uma breve e inofensiva concessão. Ainda e sobretudo por momentos de amor. Eros foi o motivo da vida pujante, cobrando o espólio da corrupção inevitável. Era mulher, mormente mulher. Ainda em crisálida resolveu testar os dotes de Ártemis, quis provar a valentia, abusou e dando de cara em muros instransponíveis, optou por continuar. Porque não testar a pretensa idéia do superável? Só mesmo para desacreditar no que diante de seus olhos mais abertos não podia ser negado. Revoltou-se de menina e de cara feia e palavrões no alvo tentou ser docilmente inoportuna. Quimera rapidamente compreendida e desfeita. Ou era cobra ou não era nada, entendendo que lobo em pele de cordeiro era ditado para homens. Fingir só se fosse na mais veemente crença da verdade, não lhe fora dado o dom do meio termo. Mulher é vício e tem de sê-lo caso queira que o peso do juízo refratário solte de seus pés. E vá, sem reticências, sem ao menos os versos metrificados, crendo que a culpa era de Pandora, danada informe, legando ao gênero o fardo de ser arte moderna, sem eira nem beira, sem rodapé e esquadro. Sendo mineira, caminhou dizendo, mas com significação, sem artífices de intelectual: e agora menina? A ilusão do escolher é doce e mantêm ordenadas cabeças e almas quase indômitas. A invenção do inusitado é trabalho geológico, imperceptível para um olho vivo e óbvio demais para as afortunadas que, confortáveis esperam o brinde sarcástico de uma tarefa muito simples para tanto alarde. Construir mulher é tarefa desmedida, sem estrutura, colocar ruídos que ninguém quer ouvir. E depois de construída, inventar outros estilos que antes de serem erguidos já serão ultrapassados. Tarefa de Sísifo, inglória e datada. Se me perguntarem se aceito buscar um caminho sem fim ou se me comprometo no ofício da tentativa, respondo como um grego, ou em essência como moça quase legítima: “para quem procura a beleza, belos serão os trabalhos que a beleza lhe impõe”.





















