
Nossa sociedade, que se diz emancipada de mitos e preconceitos sobre a condição da mulher, ainda tem muito a explicar. Quando digo: nossa sociedade, incluo a todos, homens e mulheres, cada um com a sua parcela peculiar de contribuição para a proliferação de uma perspectiva mesquinha e humilhante sobre o sexo feminino. Trata-se não apenas de uma simples perspectiva teórica, mas de uma verdadeira incorporação daquilo que julgam ser o quinhão e o destino da mulher, perpassando desde os momentos mais cotidianos até os mais importantes.
Justamente o que penso desta perspectiva ou deste discurso sobre a mulher é o que eu gostaria de tentar apresentar daqui em diante. A metodologia que utilizo aqui é aquela criticada no meio científico, que não fortuitamente é composto, na sua maioria, por “homens” marcados pela exigência do método more geométrico. Não tenho dados quantitativos, não recorro às estatísticas e nem mesmo às amostras uniformes. Não me importo se a comunidade científica ou filosófica reconhecerá ou não a profundidade e a validade do que eu digo. Enfim, não escrevo para acrescentar nada à história dos estudos sobre o preconceito sobre a mulher. Escrevo com o simples intuito de esclarecer a mim mesmo o que eu sou. Vale dizer, nessas linhas estão presentes certas ponderações marcadas especialmente pela parcialidade e pelo interesse.
Na história da filosofia clássica a experiência não é vista com bons olhos. Já para o senso comum ela parece ter um papel de grande destaque. É a partir da experiência que todos falam e, consequentemente, julgam. Confesso que nem toda experiência ou vivência é lá muito produtiva e que nem todo discurso ou opinião merece ser ouvido. Mas em se tratando deste assunto, da condição da mulher, acredito que é delas, das mulheres, que uma espécie de manifesto empírico deve surgir.
Desde que eu nasci e isso já faz algum tempo, escuto e reproduzo determinadas proposições sobre a mulher. Hoje reproduzo muito menos os discursos mais degradantes e preconceituosos, mas percebo que restam vestígios, não muito sutis, desta mesma perspectiva. Enganamos-nos muito sobre o fim do preconceito porque os gestos mais absurdos são até mesmo criticados e abominados pelos próprios homens. Daí pensamos: ora, o mundo mudou e mudou para melhor. Hoje em dia a mulher se casa por amor, tem quantos filhos quiser e ainda pode ganhar mais que o marido em sua profissão. Por mais ridículo que possa parecer este discurso ele tem a sua eficácia, já que há apenas duas, somente duas gerações anteriores, isso não era óbvio.
Um passo a mais (para mulheres crentes de sua emancipação): é possível escutarmos outro discurso, esse mais ousado: o que defenda a total desvinculação da maternidade e do casamento para a realização da essência feminina, já que estas não são condições para que as coitadinhas sejam efetivamente felizes. Vejam bem, mesmo considerando todos estes discursos que acredito, sinceramente, serem de autoria dos mesmos feitores que defendiam a mulher do forno e fogão, não aposto nem um dinheiro de que isto reflita e resolva a verdadeira condição da mulher em nossa sociedade (Brasileira... Mineira... Divinopolitana – com todas as ressalvas da minha anti-metodologia). E porque digo isso? Basta olharmos um pouco a nossa volta e percebemos que nem somos tão mais esclarecidas do que nossas avós. Sofremos do mesmo mal que as anciãs, só que de modo diferente. Ainda hoje somos definidas sempre em frase comparativas. Se gostamos de futebol, atenção, não temos o direito de desconhecer as regras, devemos saber profundamente qual é o esquema tático, os melhores jogadores em uma determinada posição (vá lá: médio-volante) e não podemos cometer gafes em nenhuma ocasião. Pois se algum deslize é cometido não somos julgadas como más-entendedoras do esporte, somos contempladas com dois julgamentos possíveis: um complacente e caridoso que nos perdoa pela burrice, afinal, somos mulheres; outro mais grosseiro (neste caso, a mulher certamente não está na condição de fêmea solteira no cio) nos cobra mais rigor e atenção, afinal se você quis entender de algo que não lhe diz respeito, ora, é preciso saber e saber bem. Em relação aos trabalhos domésticos vivemos o deslumbramento tecnológico e ou financeiro. Passamos as tarefas domésticas para as máquinas e, quando possível, para as faxineiras. Sabe quem limpa minha casa quando a sujeira torna-se insuportável? Adivinhem? Uma mulher, uma mulher negra e faxineira. Grande emancipação conquistamos, passamos o sub-serviço para outra mulher que quase sempre nem é vista como participante do mesmo gênero que o nosso. Engraçado, não? A definição da mulher, a nossa condição passa por caminhos complexos. Não basta nos livrarmos do óbvio, é preciso caminhar mais e caminhar melhor. A relação homem-mulher (minha incapacidade teórica e empírica obriga-me a deixar o caso das lésbicas de lado, pelo menos por hora) é segundo penso, o lugar mais apropriado para encontrarmos a contraprova aos avanços do sexo feminino em nossa sociedade. Daqui em diante assumo todo o risco de ser parcial e conto apenas com a expectativa de que algumas leitoras identifiquem-se com minhas descrições e corroborem meu pensamento.
Sutilmente, e ai encontra-se o perigo, os homens nos colocam no lugar que nos foi reservado pelo discurso dominante. A subordinação não se apresenta como tal, mascara-se de diversas formas, sempre belas ou práticas.
Diz o homem: - querida, é mais prático que você cuide da nossa alimentação, afinal você cozinha tão bem meu amorzinho e eu seria um desastre na cozinha.
Responde a mulher: benzinho querido, você falando desse jeito é claro que eu vou cuidar de tudo.
Continua o homem: olha amor, depois eu lavo a louça para te poupar.. Você sabe que faço tudo por você, não sabe?
Finaliza a tonta com um sorriso angelical dizendo para si mesma: nossa! que homem maravilhoso, compreensivo, adoro cuidar de nós dois. Vejam bem mulheres, a tarefa é, por natureza, vista como pertencente à mulher, mas, em casos extraordinários, geralmente ocorridos nos dois primeiros anos de casamento, o homem agrada sua mulher “poupando-a” de mais uma tarefa natural e feminina: lavar a louça. Em outros momentos, quando o assunto em pauta no recinto é o do casamento, minha nossa, a prerrogativa do desejo é sempre da mulher. Nem mesmo a minha experiência de ex-casada vale nesse momento. Todos tendem a pensar o quanto seria maravilhoso para a mulher ser pedida em casamento. A bem da verdade, eu preferiria fazê-lo eu mesma, e olha que já fiz, mas não, a prerrogativa do pedido é sempre do sexo forte. Querelas a parte, se eu engravidasse um homem, casava na hora! Oh pobres seres femininos, o que será de nós? Talvez seja preciso inventar uma outra linguagem e um outro mundo para as nossas consciências livres, um não-lugar!
Justamente o que penso desta perspectiva ou deste discurso sobre a mulher é o que eu gostaria de tentar apresentar daqui em diante. A metodologia que utilizo aqui é aquela criticada no meio científico, que não fortuitamente é composto, na sua maioria, por “homens” marcados pela exigência do método more geométrico. Não tenho dados quantitativos, não recorro às estatísticas e nem mesmo às amostras uniformes. Não me importo se a comunidade científica ou filosófica reconhecerá ou não a profundidade e a validade do que eu digo. Enfim, não escrevo para acrescentar nada à história dos estudos sobre o preconceito sobre a mulher. Escrevo com o simples intuito de esclarecer a mim mesmo o que eu sou. Vale dizer, nessas linhas estão presentes certas ponderações marcadas especialmente pela parcialidade e pelo interesse.
Na história da filosofia clássica a experiência não é vista com bons olhos. Já para o senso comum ela parece ter um papel de grande destaque. É a partir da experiência que todos falam e, consequentemente, julgam. Confesso que nem toda experiência ou vivência é lá muito produtiva e que nem todo discurso ou opinião merece ser ouvido. Mas em se tratando deste assunto, da condição da mulher, acredito que é delas, das mulheres, que uma espécie de manifesto empírico deve surgir.
Desde que eu nasci e isso já faz algum tempo, escuto e reproduzo determinadas proposições sobre a mulher. Hoje reproduzo muito menos os discursos mais degradantes e preconceituosos, mas percebo que restam vestígios, não muito sutis, desta mesma perspectiva. Enganamos-nos muito sobre o fim do preconceito porque os gestos mais absurdos são até mesmo criticados e abominados pelos próprios homens. Daí pensamos: ora, o mundo mudou e mudou para melhor. Hoje em dia a mulher se casa por amor, tem quantos filhos quiser e ainda pode ganhar mais que o marido em sua profissão. Por mais ridículo que possa parecer este discurso ele tem a sua eficácia, já que há apenas duas, somente duas gerações anteriores, isso não era óbvio.
Um passo a mais (para mulheres crentes de sua emancipação): é possível escutarmos outro discurso, esse mais ousado: o que defenda a total desvinculação da maternidade e do casamento para a realização da essência feminina, já que estas não são condições para que as coitadinhas sejam efetivamente felizes. Vejam bem, mesmo considerando todos estes discursos que acredito, sinceramente, serem de autoria dos mesmos feitores que defendiam a mulher do forno e fogão, não aposto nem um dinheiro de que isto reflita e resolva a verdadeira condição da mulher em nossa sociedade (Brasileira... Mineira... Divinopolitana – com todas as ressalvas da minha anti-metodologia). E porque digo isso? Basta olharmos um pouco a nossa volta e percebemos que nem somos tão mais esclarecidas do que nossas avós. Sofremos do mesmo mal que as anciãs, só que de modo diferente. Ainda hoje somos definidas sempre em frase comparativas. Se gostamos de futebol, atenção, não temos o direito de desconhecer as regras, devemos saber profundamente qual é o esquema tático, os melhores jogadores em uma determinada posição (vá lá: médio-volante) e não podemos cometer gafes em nenhuma ocasião. Pois se algum deslize é cometido não somos julgadas como más-entendedoras do esporte, somos contempladas com dois julgamentos possíveis: um complacente e caridoso que nos perdoa pela burrice, afinal, somos mulheres; outro mais grosseiro (neste caso, a mulher certamente não está na condição de fêmea solteira no cio) nos cobra mais rigor e atenção, afinal se você quis entender de algo que não lhe diz respeito, ora, é preciso saber e saber bem. Em relação aos trabalhos domésticos vivemos o deslumbramento tecnológico e ou financeiro. Passamos as tarefas domésticas para as máquinas e, quando possível, para as faxineiras. Sabe quem limpa minha casa quando a sujeira torna-se insuportável? Adivinhem? Uma mulher, uma mulher negra e faxineira. Grande emancipação conquistamos, passamos o sub-serviço para outra mulher que quase sempre nem é vista como participante do mesmo gênero que o nosso. Engraçado, não? A definição da mulher, a nossa condição passa por caminhos complexos. Não basta nos livrarmos do óbvio, é preciso caminhar mais e caminhar melhor. A relação homem-mulher (minha incapacidade teórica e empírica obriga-me a deixar o caso das lésbicas de lado, pelo menos por hora) é segundo penso, o lugar mais apropriado para encontrarmos a contraprova aos avanços do sexo feminino em nossa sociedade. Daqui em diante assumo todo o risco de ser parcial e conto apenas com a expectativa de que algumas leitoras identifiquem-se com minhas descrições e corroborem meu pensamento.
Sutilmente, e ai encontra-se o perigo, os homens nos colocam no lugar que nos foi reservado pelo discurso dominante. A subordinação não se apresenta como tal, mascara-se de diversas formas, sempre belas ou práticas.
Diz o homem: - querida, é mais prático que você cuide da nossa alimentação, afinal você cozinha tão bem meu amorzinho e eu seria um desastre na cozinha.
Responde a mulher: benzinho querido, você falando desse jeito é claro que eu vou cuidar de tudo.
Continua o homem: olha amor, depois eu lavo a louça para te poupar.. Você sabe que faço tudo por você, não sabe?
Finaliza a tonta com um sorriso angelical dizendo para si mesma: nossa! que homem maravilhoso, compreensivo, adoro cuidar de nós dois. Vejam bem mulheres, a tarefa é, por natureza, vista como pertencente à mulher, mas, em casos extraordinários, geralmente ocorridos nos dois primeiros anos de casamento, o homem agrada sua mulher “poupando-a” de mais uma tarefa natural e feminina: lavar a louça. Em outros momentos, quando o assunto em pauta no recinto é o do casamento, minha nossa, a prerrogativa do desejo é sempre da mulher. Nem mesmo a minha experiência de ex-casada vale nesse momento. Todos tendem a pensar o quanto seria maravilhoso para a mulher ser pedida em casamento. A bem da verdade, eu preferiria fazê-lo eu mesma, e olha que já fiz, mas não, a prerrogativa do pedido é sempre do sexo forte. Querelas a parte, se eu engravidasse um homem, casava na hora! Oh pobres seres femininos, o que será de nós? Talvez seja preciso inventar uma outra linguagem e um outro mundo para as nossas consciências livres, um não-lugar!




