quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Cinema e coisas de gênero



Apesar da minha severa implicância com Freud e suas teorias da castração, devo admitir que os homens podem alegar a seu favor a existência factual de uma tradição um tanto quanto significativa. Nós mulheres que bradamos por um lugar ao sol devemos ainda esperar algumas gerações para perceber algum avanço nas relações de poder. O mundo ainda é bastante a favor dos machos e digo isso pensando nas expressões da cultura e da arte. Inspirada por Walter Benjamin, posso arriscar a dizer que a história das mulheres ainda não foi contada. È razoável pensar que mulheres fantásticas existiram e mudaram o curso da história. O fato é que algumas forças impediram que essas narrativas viessem à tona. Sou mais pessimista que os filósofos judeus, infelizmente são eles, os danadinhos, que perpetraram a crença na sua própria superioridade através da literatura, das artes e do cinema. Para as mulheres, pelo menos até então, (que me perdoem as feministas) sobrou o ditado digno de piedade: atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher!. Quando falo de cultura penso nesse caldo gelatinoso no qual reafirmamos nossas crenças e medos. Dizem as más línguas (Platão, por exemplo) que os discursos de Péricles eram feitos pela sua esposa, a sabichona Aspásia. O engraçado é que isso é motivo de chacota do grande estadista ateniense. Outras lendas povoam o imaginário, mas cá entre nós o ponto de referência é sempre dos meninos.
Se hoje a situação parece dar sinal de mudança não podemos dizer o mesmo de cinqüenta anos atrás. A questão melindrosa é que nós mulheres de 2009 não vivemos sob a simbologia do século XXI. Pelo contrário, fomos educadas e criadas por mães e pais nascidos nas décadas de 50 ou 60. Fatos marcantes do século XX foram determinados por atores masculinos. Posso conjeturar que Eva Braun fosse uma mulher bem malvadinha, mas seu grau de excelência na escola dos terrores está infinitamente abaixo do seu marido estimado. Quem entrou para a história? Ele, o bigodinho anti-semita.
No cinema em geral a mimesis é perfeita e as coisas caminham segundo o paradigma cromossômico do XY. Alguns exemplos retóricos: Don Vito Corleone (Poderoso Chefão), Rocky Balboa, Falcão, Jece Valadão, Joe Kidd, Alex de Large (Laranja Mecânica), Tony Montana (Scarface), Travis Bickle (Táxi Driver), Dave (2001), William Munny (Os imperdoáveis), O leão macho (O rei Leão), King Kong (porque não era uma fêmea heim?), ET, O Exterminador do Futuro, Blade Runner, Karate Kid, Jerry Maguire, Touro Indomável, Doze Homens e uma Sentença, etceteras infinitas.
Veja bem, não tenho a intenção de criticar os filmes, pelo contrário, quase todos os supracitados são bons, mas são estrelados por homens. Alguém já imaginou uma versão feminina do Falcão (Stallone)? Quando viro o meu colar eu penso no meu caminhão!
Fato é que existem exceções e querem saber, as tais são as melhores, de mais alto nível cinematográfico. Ainda que tenha existido a Dama do Lotação aqui nos trópicos, junto com Tieta do Agreste e as insuportáveis Helenas de Manoel Carlos, houve alguém que nada mais fez durante sua carreira do que dar voz às mulheres. Esse sujeito se chamava Ingmar Bergman. Em minha opinião interesseira trata-se do mais genial de todos os cineastas. Não que todos os outros não fossem bons, mas Bergman tem uma essência distinta. Por isso, uso esse meu ínfimo espaço, de raros leitores, para lembrar do que não pode ser esquecido. Persona, Gritos e Sussurros, Morangos Silvestres, Sétimo Selo, Cenas de um casamento, Da vida das marionetes, Fanny e Alexander são filmes imprescindíveis para todas e todos aqueles que gostam de cinema e que, por acaso, apreciam o pensamento.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A lista do mês!

Foto by Gui, Rio de Janeiro

Bom, na falta de qualquer criatividade mais honesta e na ânsia de não deixar o blog sem postagens no mês, resolvi criar uma dessas listas que todo ser humano tem direito de fazer um dia... (os referidos se devem às minhas porcas experiências dos últimos dias)!

Os aplausos

1. Ao divertido Mendonça, personagem da Grande Família, mais especificamente, ao ator Tonico Pereira. Na minha humilde opinião trata-se de um ícone do enlatado, o anti-herói e bravo defensor da vida boêmia!

2. Aplausos para a mostra de filmes do Canal Brasil que começa dia 9 de outubro, sempre às 00:45: " Um certo olhar francês". A mostra trará os grandes clássicos do cinema europeu com destaque para o "Acossado" e La belle de jour"!

3. Aos vinhos brasileiros, especialmente aqueles produzidos no Vale do São Francisco. Graças aos amigos entendidos pude descobrir as maravilhas dos lados de cá. De lá e de outras regiões, destaque para o espumante Pericó e Rio Sol rosé. Como já disseram e não sei quem foi: é a verdadeira felicidade engarrafada!

4. Aplausos para o rebento honesto, o competente Diogo Nogueira. Não bastasse a origem, o danado faz um som excepcional, digno que quem aprecia o samba inteligente da família. Escutem o seu: "Tô fazendo a minha parte", vale muito! O timbre é do pai e o resto é do filho!

5. Quanto aos livros dois aplausos um pouco atrasados eu confesso: "Ms. Dalloway" e "A mulher de trinta anos". Virginia Woolf e Balzac são mais próximos do que imaginamos. Grandes mulheres e seus eternos conflitos. Até parece que estou num espelho, daqueles do velho João Nogueira!

6. Outra dica de vinho, o "Concha y Toro", Sauvignon blanc, reservado (2004). Custa pouco, traz felicidade e prazer por apenas 17,00 reais a garrafa... Leve, harmonioso e amigo, uma garrafa por cabeça.

Vaias:

1. Ao campeonato brasileiro que de tão ruim consegue quase empatar cinco times na reta final. Prá mim o Palmeiras vence, apesar de... (já viram a tabela?). Minha maior premunição é quanto ao Atlético Mineiro (termina entre o quinto e sétimo lugar... jogos difíceis pela frente).

2. Vaias para mais uma novela do nosso velho conhecido "Manoel Carlos": Viver a Vida! Como diz o meu grande amiguinho Adnet: "Cara, a vida é boa demais, larga essa novela e vai viver a vida...". Grande porcaria.. Apartamentos de 10 milhões, Paris, amor, traição, periferia bandida... Cá..cá...cá. É sério? As vezes me pergunto. O pior é que é!

3. O preço do queijo. Quem é dona ou dono de casa já deve ter percebido. Um simples queijo minas está custando a bagatela de 25,00 reais o quilo, acreditam? Deixei de comer queijo, troquei pelo patê de atum com maionese...

4. Vaias pra aquela mocinha bunita e loirinha que apresenta o Video Show (ruim coitada); Vaia pra reforma que estão fazendo no 204 (eu moro no 104, entenderam?)!, Vaia para todos os deliverys que não entregam no Padre Eustáquio (Habibs, Mac donalds, restaurantes da Zona Sul e cia) e uma vaia bem grande para o único restaurante que existe perto da minha casa: comida ruim, cheio de gente mal educada e sem qualidade.. ai jesus.. alguém sabe de um apartamento pra alugar?

domingo, 6 de setembro de 2009

Censura

Caros e raros leitores, há uma semana postei uma conversa sui generis e verdadeira no blog e acabei deletando neste extao momento. A explicação é que um imbecil que preferiu não se identificar fez comentários tão inúteis e imprecisos que resolvi poupá-los de tamanha burrice. Bom, isso não significa que o blog não esteja aberto à discordâncias. Porém prefiro não disseminar implicâncias infundadas de pessoas conhecidas e ressentidas. Ok? No mais, continuamos nossa brincadeira de sempre...

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Lei antifumo






Na minha longa lista das "coisas irritantes" consta, ultimamente, a hipocrisia do Estado de direito brasileiro que insiste em nos fazer engolir a qualquer custo o coronelismo disfarçado de bem estar comum. Temo que daqui há a um tempo seguranças de saúde, da famosa SS, saiam de fumante em fumante pregando adesivos de nicotina no pescoço, para o bem deles, é claro. Estou quase de acordo com a lei antifumo, mas proibir que estabelecimentos particulares separem espaços para os fumantes é absurdo. Os defensores da lei nesse quesito se defendem:
- Estamos pensando no bem dos próprios fumantes... (quase dizem: "eles ainda vão nos agradecer por isso"). Estou escutando Jesus? o imbatível ícone das virtudes? - Perdoe senhor, eles não sabem o que fazem.
- Por caso, algum fumante foi até o seu deputado e pediu para ser protegido de sua própria escolha? Alguém conhece esse infeliz? Não estamos falando de uma droga ilícita, mas sim de um produto que a sociedade de consumo sempre fez questão de relacioná-lo ao glamour e ao poder. Tudo isso foi feito em milhares de campanhas publicitárias e filmes hollywoodianos e o Estado sempre lucrou com as vendas dessa vedete do charme burguês e dos intelectuais. Esse mesmo Estado agora proíbe os antigos clientes de escolher pelas suas próprias vidas. Não sou nem contra nem a favor do cigarro, mas é nítido como as mais autoritárias regras são impostas ao cidadão com a desculpa do bem comum. Só queria que o legislativo pensasse mais antes de aumentar a constituição.
Oh lugarzinho engraçado esse nosso Brasil. Se uma mulher procura o serviço público para fazer um aborto ela terá algumas respostas possíveis:
- Não
- Isso não é o melhor para você!
- Se continuar com essa idéia você pode ser presa!
Se ela procurar uma igreja católica, deve ouvir o seguinte:
- Não
- Isso não é o melhor para você!
- Se continuar com essa idéia você pode ser excomungada!
Sem ajuda do Estado e da Igreja, antigos amiguinhos sórdidos, ela procura uma clínica clandestina com descontos progressivos e escuta:
- Sim
- São 500 reais agora e mais 500 no final.
- Volte sempre!
O que ocorre, na minha opinião, é uma ditadura das ações virtuosas. E eu desconfio que essa conversa de virtude é quase sempre definida ou pela igreja ou pelo Estado. Com tudo isso tenho que ouvir as palavras repugnantes nos jornais: Sarney, Edir Macedo... Prevejo um futuro negro, trevas total, como dizem os adolescentes! Manchete dos jornais de algum dia:
Novas proibições engrossam a lista da liga da justiça:
-Proibido o suicídio (se mal sucedido, a pena é de cincos anos amarrado na cama);
-Proibido ter inimizades (a pena é de ser abandonado pelos amigos);
-Proibido os blogs de oposição.






segunda-feira, 27 de julho de 2009

A Poços de Caldas que eu vi

Foto by Vê

Durante certa época da vida tomei conhecimento das idéias pessimistas. Logo vieram os bordões aplicados ao cotidiano: "a vida é um fardo", "é um negócio que não paga seus custos," "a felicidade é a ausência de sofrimento" etc... Também conheci meus companheiros de luta: Pessoa, Machado de Assis, Caio Fernando Abreu, Sterne, Cartola... Continuo admirando a prosa dos chegados, talvez porque para eles o pessimismo era somente o ínicio da conversa, motivo de arte e no fundo o tratavam como variação sobre o mesmo tema que é a vida! Já quando se tratava de filosofia tudo era bastante fundamentado e parecia fazer mais sentido a cada desilusão da vida madrasta. No entanto, por melhor que fosse, enquanto consolo na miséria, o pessimismo apresentava uma importante falha ao ignorar os incontáveis exemplos da vida ordinária que desmentem o tempo todo os adágios moribundos. Schopenhauer que me perdoe o entusiasmo, mas se os níveis de serotonina não estiverem em baixa e os óculos forem bem ajustados é mais que possível ver a vida com leveza. (segue um exemplo vivo abaixo) Não sei se a alegria pode ser a melhor fonte da boa arte, o contrário parece mais provável. O lugar comum é o da desgraça, mas existem bons roteiros que preferem dizer um "sim" à existência. Assim, entre a desgraça e a abulia, entre o "never more" e o "happy end" deve haver um modo mais realista de ver a encenação.
A propósito do assunto, acabo de voltar de uma viagem revigorante. Os quatro dias em Poços de Caldas confirmaram a posição defendida logo acima. Cidade muito charmosa e bem cuidada que compensa o esforço em percorrer os quase quinhentos quilômetros que a separam de Belo Horizonte. Não bastasse as belezas naturais e a arquitetura da cidade (relato esse que deixo a cargo do geógrafo), conheci algumas pessoas interessantes, gente da maior e da menor valia. Aqui assumo o direito de emitir juízos de valor que, por mais fortes que sejam, a mim não me parecem exagerados. A de maior valia é mulher, mãe, viúva e professora aposentada. Tem as posições mais inusitadas para o seu perfil. Quem apenas lesse suas credenciais, as tais apresentadas por mim, dedicaria-lhe certos adjetivos. Dentre eles vejamos os possíveis: conservadora, pacífica, amável, avessa à mudanças, dedicada, preocupada e moralista. Alguns desses termos lhe caem bem, outros nem tanto. De alma leve e com muita estrada percorrida, se abstêm de qualquer julgamento moral ou se o faz logo em seguida solta uma risada indescritível que ameniza sua perspectiva, como quem dissesse: "talvez seja isso!".
O seu valor está exatamente nessa incerteza e na tolerância que dela provêm. Ao não adotar posições extremadas permite a aproximação de outras perspectivas, não sem ironia é claro. O bordão da sua existência, no meu modo de ver, é o deixar viver, não sem crítica ou reflexão, mas com a tranquilidade de quem só se preocupa com está em seu alçance. Para celebrar o contraste com tudo isso me esbarrei com uma pessoa de menor valia. De burrice incontestável e estado de consciência alterado somente conseguiu mostrar sua intolerância e decadência. Por motivos retóricos e a fim de não estragar o relato de hoje, encerro logo a descrição da alma rastejante. Continuo e já vou terminando. Poder perceber as coisinhas da vida, boas ou ruins, é privilégio de todos. Só pelas chateações já vale a pena correr o risco e defenderei essa posição até ter a certeza de que depois da morte vão me encaminhar para o paraíso... ou para uma cidade como Poços de Caldas.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O delivery é coisa do diabo!


Deus abençoe as segundas-feiras, além dos outros dias em que posso ficar em casa sem obrigações a cumprir. Todo ser humano precisa se trancafiar na preguiça de vez em quando e abrir o portão de casa apenas para atender o delivery. Há algum tempo atrás, assolada pelo mal do século, não suportava o ócio e mal podia pensar na possibilidade de ficar só. Era mesmo um estado anormal. Hoje defendo que existem poucas coisas melhores do que ficar sozinha, munida de internet, seriados enlatados, filmes que você tem na estante e nunca viu, comida pronta and some other things! Trata-se de um contexto adequado à criação, ao descanso e ao mais puro egoísmo. Não aproveitei o dia para arrumar a casa, organizar papéis, resolver problemas, nada, absolutamente nenhuma tarefa considerada útil pelas pessoas de bom senso. Como não tinha nenhum plano para hoje, acabei deixando a vontade me levar e olhem só: assisti The Godfather e Obrigado por fumar, dois episódios da Família da Pesada, o jogo da seleção brasileira, li um texto fantástico na revista Piauí deste mês, comi pão com salsicha e guaraná enquanto via Bob Esponja, desci na portaria duas vezes e enfim me enterrei na internet. Diante da experiência, da liberdade não resisto ao pecado de alfinetar a tradição: não é que Deus estava certo? O tal do trabalho (do latim tripalium, instrumento de tortura) não é mesmo um castigo mortal? Como podemos ver no seu mais famoso best seller, na questão das origens, Deus sopra no ouvido de um profeta que dispara a sentença: "maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida." (Gênesis, 3.17).

terça-feira, 28 de abril de 2009

Reflexões sobre o clássico!



Há algum tempo aprecio o futebol. A bem da verdade, desde muito pequena e influenciada por meu pai, aprendi a nomenclatura pra lá de difundida do esporte por excelência do nosso país. O primeiro grande jogo de que me lembro foi a amarga derrota da Seleção Brasileira para a Argentina na Copa do Mundo de 1990. Oitavas de final e sucumbimos diante do cabeludo Caniggia. Felizmente, nos dois anos seguintes tive a felicidade de ver o Cruzeiro campeão da Super Copa da Libertadores. Em 97 ainda pude conferir o Celeste levar a própria Libertadores contra o Sporting Cristal do Perú. Pois bem, foi a geração de Palhinha, Nonato e Dida que me convenceu, além do fanatismo de meu pai, a adotar a camisa azul e branca como paixão incondicional. Querelas a parte, penso que o futebol tem muito a nos dizer. São metáforas valiosas para a compreensão das coisas da vida. Inspirada por essa aposta e saudosa de minhas escolhas futebolísticas, resolvi discorrer sobre o clássico dos gramados mineiros. Ontem, dia 27 de abril, assisti ao clássico do meu estado, Atlético e Cruzeiro. Apesar da empolgação cabe aqui um juízo filosófico acerca do jogo. Adiantando o grand finale, ganhamos por cinco gols de diferença. Porém, o crucial da partida não foi a goleada. Apesar do supremo prazer causado aos torcedores, a chuva de gols somente refletiu um outro ponto mais interessante: o estilo do time. Se de um lado víamos um técnico tentar estratégias bizarras de organização tática, de outro podíamos notar a tranqüilidade de quem sabe o que é. Parafraseando Nietzsche: gelo liso é um paraíso para quem sabe dançar! O controvertido Adilson Batista escalou sem mais problemas o seu time tradicional no esquema 4.4.2. que se transformou rapidamente naquilo que a equipe precisava devido à flexibilidade e excelência dos seus jogadores. Já Emerson Leão tirou da cartola a pretensa solução para o Atlético com seus quatro volantes e Júnior, a estrela solitária na ponta esquerda. Teve quem pensasse que daria certo. Com a vantagem de dois resultados iguais, um empate seria primoroso saldo para o Galo. Com a marcação cerrada no meio, o Atlético seguraria o meio cruzeirense e numa sobra de bola oportuna Júnior colocaria Tardelli na cara do gol. Pois é, no papel até funciona, mas Leão esqueceu de verificar a qualidade de seus jogadores e a capacidade de avançar ou recuar com qualidade na hora oportuna. Para o torcedor que escuta a formação tática do seu time, parece mesmo que o esquema pode funcionar. A questão é de um lado o meio era formado por Ramirez, Wagner, Fabrício e Paraná e do outro lado do Mineirão tínhamos Carlos Alberto, Márcio Araújo, Renan e Rafael Miranda. No Atlético ainda havia um “homem surpresa” solto, à frente do meio, Lopes “inexistente” de Tal. No papel, o estilo do jogador não significa muito, mas é no campo que a excelência define a pendenga. Para aqueles que viram o clássico de domingo fica a certeza de que o meio cruzeirense é de mil e uma utilidades; sabemos que Ramírez marca e arma as jogadas como ninguém; que Wagner, nosso meia-armador, sempre volta e busca a sobra junto com os volantes; Marquinhos Paraná, disciplinado e estável, não se furta aos lances na lateral e, por fim, Fabrício, coordenador da defesa intermediária, tem uma mania irresistível de passar o meio de campo. Vá lá, o Cruzeiro está longe do carrossel de Cruyf, mas lucramos muito com a tal flexibilidade dos jogadores. A retranca do Atlético teria até funcionado se do outro lado não tivéssemos jogadores de grande qualidade técnica e entrosamento. Cabe aqui a pergunta: qual é melhor estratégia? Defesa ou ataque? Partir para a definição ou esperar e reagir? Aqui já não falamos mais de futebol, mas de questões existenciais: qual é o melhor modo de vida? Jogar com o regulamento nas mãos nem sempre é a melhor escolha, basta nos lembrarmos de 2007 e da vigorosa e humilhante vitória do Galo contra o Cruzeiro. A questão é mais antiga do que podemos imaginar. Um herói, dotado de areté (virtude) não entra em comparações. Ele é aristoi, excelente, virtuoso em qualquer intempérie. O melhor naquilo que faz zomba do adversário como zombaria de uma criança. O que está em seu peito não é a exigência burocrática da vitória, mas a naturalidade com que se sobrepõe sobre seu adversário. Assim o fez o atacante Kléber, imitando uma “galinha” e o “chorinho” do time alvinegro. Obviamente, cristãos que somos, repudiamos a iniciativa bélica do jogador. Diferentemente dos gregos, somos obrigados a engolir a exigência do fair play. Definição nossa: Fair play significa ganhar, porém não tripudiar. Como se o futebol fosse apenas um esporte técnico, isento das paixões e os jogadores apenas autômatos em campo. Ora, para o torcedor que se vê representado por seus onze jogadores nada mais catártico e prazeroso do que a desforra. Tal como fez Aquiles contra Heitor, o time azul criou a sua própria maneira de encenar a via-crúcis do adversário. Ontem, fomos certamente os soldados romanos, independente da moral ou do bom-senso. Como em um teatro grego, o público vibrou sentindo-se renovado e vingado de todas as provocações extra-campo. Isso é o futebol, caros senhores, feito de dribles, provocação, demonstração de superioridade e de alegria. Kléber deveria ter dito: desculpa meu caro Juninho, não queria ter feito o gol, mas não pude evitar, sinto-me culpado! Ora, eia, deixemos a hipocrisia de lado e aceitemos as regras tácitas do jogo ou então mudemos a preferência nacional. Que tal uma sóbria partida de xadrez?

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Causos de família.


Outro dia desses conversava com meu pai sobre as coisas da vida quando ele tirou da cartola a seguinte frase:
- Minha filha, "tapar o sol com a peneira" não é bom negócio.
Curiosa com o porquê da estória fiz cara de interrogação e ele completou explicando:
- Por que dá um xadrezinho terrível!
Esse é meu pai (risos)!!!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

O caminho

O caminho, by Gui


Vindo do supermercado, em saudável caminhada pela Via Expressa, fui surpreendida por um estranho fenômeno. Tive a nítida sensação, pela alma e pelo corpo, de viajar no tempo. Em poucos segundos voltei para um passado de data incerta, mas de experiência vivida. Costumo ter essa sensação quando mudam as estações. Hoje foi a vez de o outono levar-me a reviver, através do cheiro do ar, do cinza do céu e do vento forte, algo que a minha memória não podia acessar por esforço intelectual. Se não me engano, acabo de viver o que Proust chamou “memória involuntária” em sua Recherche. Considerando que eu tenha partilhado da experiência proustiana, o que isso pode significar? Não sei ao certo. Qualquer registro sobre um fenômeno não-discursivo se dá por pequenas aproximações e metáforas. À primeira vista, me parece que o tal fato pode ser visto como uma transcendência do vivido, oposta às pretensões estritamente racionais de decifração do mundo. Quero dizer, um fenômeno que vai contra a idéia de que a consciência basta a si mesma. Qualquer método científico aqui não teria vez, já que o ocorrido é alheio à vontade e não-mediado pelo discurso. É como se estivéssemos o tempo todo diante de hieróglifos e “cifras” que somente se revelam por um conjunto indeterminado de fatores e em momentos não esperados. Os hieróglifos não têm uma significação universal, pelo contrário, são tão particulares e subjetivos que só podem ser captados por uma série de lembranças que nem mesmo o indivíduo sabia que lhe pertencia. Meus quinze anos, na saudosa Divinópolis, que ainda não é “apenas um retrato na parede”, vieram de uma só vez, através de múltiplas sensações estranhas à razão. Parece que a lembrança involuntária, através de mecanismos extra-discursivos, ou seja, por um atalho desconhecido no caminho, nos leva a pensar acerca de uma busca que é nossa velha conhecida, a busca pelo eu, ou melhor, pela resposta à pergunta: que sou eu? Já adianto que a solução de Descartes não é suficiente para o caso em pauta. Sou uma coisa que pensa, sente e cuja memória, da qual não tenho total controle, faz vir à tona os mais intrincados segredos. A Busca do Tempo Perdido é a própria busca de um “eu” cambiante, como gostava de dizer o caro senhor Montaigne. Uma das vias para a resposta também não se deixa apreender totalmente, mas nos dá uma pequena amostra do que seria a delirante experiência do completo conhecimento de si.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O amor, amizade e outras coisas que valem a pena!!

foto by Vê

É finda a quaresma, tempo de reflexão dos cristãos!!! Que bom ser cristão, são apenas quarenta dias de reflexão, ou seja, um pouco mais de 10 % do tempo anual. Quem me dera esse luxo. A cabeça dos meus pares não pára, nem nos sonhos. Depois de uma aula cansativa, é hora de pensar as coisas boas e quiça pecaminosas da vida! Fiz 27 anos há menos de um mês e, para falar a verdade, pouca coisa mudou. Continuo teimosa e à procura!!... Como um velho amigo meu, continuo à procura... sem objeto, sem destino. Em verdade, considero-me com dois anos de idade, de vantagem ou de sofrimento. Como dizia nosso caro Schopenhauer: "a vida é um negócio que não cobre seus gastos". Hoje a Cinelli me fez voltar a escrever, uma amiga. Caros leitores raros ou inexistentes, falar de si mesmo sem ser piegas e limitado é o desafio dos desafios! mais difícil que final de libertadores! Montaigne bem o sabia. Meu amigo Thiago sempre escreve, ele está bem afastado desse meu tédio e incapacidade. Se eu soubesse me fantasiar de ficção!!! mas ainda não peguei o jeito, nem sei se um dia o terei. Enquanto isso, ensaio meus sentimentos, meio maneta, sem jeito... Preparo um escrito sobre as mulheres, espero que venha logo. Inté.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Compulsividade: estudo de caso, o carnaval!

foto by Vê



Caros leitores inexistentes, hoje estou compulsiva, preciso escrever. O remédio não faz mais efeito e não consigo dormir. Pois bem, vamos ablar sobre o carnaval, sobre a porcaria do carnaval. Durante o ano todo temos quatro dias para jogar tudo pro alto e sucumbir a Dionísio. Pois então, vou ficar em BH. Me diz qual Deus eu devo revenciar: à ordem beneditina? Nada a fazer, absolutamente nada a fazer. Todos perdem a razão, usam roupas coloridas, vão à desforra e eu, por vingança, vestirei preto, cinza, marrom... Escutarei música clássica e no almoço servirei salada! Serpentinas? Só se for da cerveja, porque essa meu bem, ah, essa eu mereço tomar, todas inclusive!! O que é um bêbado sozinho? É como um quadro do Picasso que nunca foi visto. Não tem graça, mas ficarei, eis o meu propósito. Ficarei bêbada vestindo preto e marrom, escutando um belo adágio ou quiçá um réquiem escatológico... Farei um estoque, é melhor não brincar com esses assuntos. O bar daqui de perto pode estar fechado. Decisões tomadas, agora é esperar. Vejamos quantas postagens vai render esse carnaval reprimido.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Defesa ou indefesa?

Cão, foto de Vê


Dia 13 de fevereiro, às 14:00 horas descobrirei!!! Foram três anos de espera, muitas mudanças, poucas em essência, a maioria dizia a respeito à forma. Meu objeto é um velho e conhecido amigo: o senhor Platão. Para quem começa agora, uma dica: escolham alguém menos famoso, oh trabalho que deu falar alguma coisa que já não tenha sido dita! E querem saber: não digo nada de novo, mas tenho um orgulho: a forma e a letra são minhas. O caminho para chegar ao "mesmo" é somente meu. Nestes três anos vários elementos me acompanharam: os amigos, os amores, viagens, noites vazias, noites alegres, vícios e virtudes. Acho que fiz um produto razoável do que me aconteceu. Platão? Somente um pretesto! Mestrado? Um rito de passagem! Fica a lembrança dos tais elementos.. Descobri algumas coisas, como, por exemplo: que um plano só existe para não ser cumprido; que um ponto de vista nunca é original; que existem aqueles piores e muito melhores que você; que ser mediano não é tão ruim assim; que a vida importa mais que os títulos; que os títulos fazem falta quando você menos espera...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sobre a morte

Noite, foto de Vê


A morte, além da simples putrefação, é que pode levar o homem a refletir sobre a existência. Ela, que parece ser um fato, perde-se em finas nuanças quando colocada diante da finitude. O fato da morte vale mais pela sua espera inglória e certa do que pela perda efetiva dos sentidos e o apodrecimento da carne. Eis a questão, o dado material torna-se quase rarefeito diante do sentido atribuído a vida. Não se diz: perdi um conjunto de células e tecidos, mas: perdi um amigo! É diante de uma caveira que Hamlet chega ao nível mais profundo do pensamento. "Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre / Em nosso espírito sofrer pedras e setas / Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja, / Ou insurgir-nos contra um mar de provocações / E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais. / Dizer que rematamos com um sono a angústia / E as mil pelejas naturais-herança do homem: / Morrer para dormir... é uma consumação Que bem merece e desejamos com fervor [...]" 3.1.108. Hamlet. Montaigne, um filósofo que dedicou à questão da morte dois de seus Ensaios, viveu ele próprio, a experiência dolorosa e profunda que deu origem a uma mudança fundamental de sua vida: a morte de seu melhor amigo, Etienne La Boétie. Perguntado sobre o porquê de tamanha amizade e afeto, Montaigne respondeu: "Parce que c'etait lui" (Porque era ele). Parce que c'etait moi" (Porque era eu). A experiência diante da morte tem a singularidade de despertar um outro problema, o significado dos parcos dias que se vive. Entre os gregos a alegoria da morte tinha outro significado. A mãe de Aquiles preferiu uma vida curta e gloriosa para o filho do que vê-lo passar seus dias na inteira mediocridade. Não sei se optaria pelo mesmo caminho, certo é que as vidas curtas e bem orientadas entram para o livro das coisas que merecem ser contadas. Nascer, crescer, procriar... não é matéria de um romance. Nascer, lutar e fazer algo de ti impor-se ao mundo, isso vale a pena não esquecer! Portanto, vive-se bem, mesmo que pouco; vive-se de modo mediano, embora a morte chegue apenas aos 90 anos. Não queiramos tudo: vida longa e gloriosa! Outra questão se insurge: o que é viver bem? Qual o melhor modo de vida? Meus caros, talvez seja este o cálculo mais difícil, a ponderação mais auspiciosa. Cuidemos de nós mesmos! A tarefa é semelhante aquela de Sísifo, inglória, porém necessária para quem já a iniciou. Seria um castigo a finitude? Saramago pensou sobre isso ao escrever seu: Intermitências da morte. Segundo nosso autor, a morte resolvera entrar de férias, sem tempo para voltar. Como fazê-lo? Sem a morte, como proceder? Será a vida dotada de mesmo sentido e valor se ela, a carrancuda, não existisse? De Homero a Woody Allen, é possível não pensar no fim? A pesquisa inspira cuidado e método, continuamos a conversa depois!