Espasmos
Não seria a depressão aquilo que os antigos denominavam como “melancolia”? Certo mal estar nauseante que faz o homem trocar tudo que é ativo e está em movimento pela apatia do sono ou da reclusão? Certo sorriso amarelo para a vida, olhar de gato quando acorda, como se dissesse: grande coisa estar aqui!
Talvez desse não-saber-o-que-fazer tenha origem a imensa quantidade de quinquilharias que inventamos ao nosso redor. Adornos que devem dar sentido, preencher os vazios, sempre mais fundos que qualquer tentativa. Alguns menos fundos se contentam, para os outros existem quinquilharias gigantes. Para o homem que se sabe vazio é preciso outros preenchimentos, mais sutis, mais autênticos. A escrita é um deles.
A escrita é patética, interessada e terapêutica. O verdadeiro escritor não escreve para os outros, escreve para si, purgando-se de tudo que o sufoca, prende. Outras escritas feitas para informar, formar, instruir, advertir, essas e todo o resto se dividem em duas classes: retórica e manuais de auto-ajuda.
Quem é o leitor? Nenhum compromisso tenho com os leitores, talvez nem chegue a ter um deles algum dia. Quando conserto uma frase ou tento escrever de maneira mais inteligível faço-o por mim mesmo, com o único interesse de que a idéia que se passa naquele momento em minha mente não seja mal expressa através das palavras. Quem escreve para o leitor constrói discursos, sempre adequados a uns e antipatizados por outros. E o que isso tem de importante? Agradar ou desagradar não me interessa.
A vida interior de cada um é, para o próprio indivíduo, a única coisa digna de verdadeira preocupação. O modo como se vive também é a única matéria realmente importante a se pensar. Por último, o significado da morte é tão somente o assunto que mais nos leva a mudar nossas vidas.
Quem somos nós? Ganhamos muito se descobrirmos o significado ou pelo menos alguns traços do próprio eu, ao invés de totalizarmos as experiências singulares assumindo compromisso com qualquer axioma da natureza humana. A tentação de generalizar é tão grande quanto é comum a preguiça de afirmar categoricamente o relativismo absoluto. Tentando ficar entre o lá e o cá, ainda assim, não ganhamos muita coisa. Talvez voltemos a investir nos manuais da Corte como os de Pascal ou Gracian. Talvez a leitura do dia seja: Os Caracteres Humanos, do Conde de La Rochefocault.
Estão tentando
- Estou fora de órbita; - não vejo sentido no mundo; - tudo é perspectiva; Sem considerar a validade destas frases percebe-se o quanto elas caíram no gosto do povo. Ai de quem não admitir a perspectiva em meios acadêmicos. Inventamos a estética da melancolia e do niilismo. Construímos discursos sobre o não-ser a todo o momento como se isso fosse muito simples de digerir. Ao mesmo tempo em que bradamos o fim da verdade, marcamos a consulta no psicanalista e corremos atrás das receitas de medicamentos antidepressivos. Estou enganada ou sobraram parafusos na montagem da estante? Será mesmo que sabemos, vitalmente, sobre tudo que dizemos? Mais um ponto: será que queremos a vida que contamos ou fingimos que aceitamos para entrar na ordem do “normal”. É pelo desejo de normalidade que enlouquecemos? Paradoxal isso.
A questão continua: trocar a tradição pelo quê? Se a questionamos algum dia é porque a velha matrona cheirava mal a alguns narizes mais sensíveis, disso não duvido. O que pergunto é: o quê colocamos em troca? Alguns mais ferrenhos me diriam: não queira nada em troca, mulherzinha! Desculpe minha mesquinharia feminina, mas prefiro um urubu na mão, cheirando mal e me fazendo companhia do que duas andorinhas amarelas no horizonte. Falo por mim, mas não almejo só a minha pessoa, solidão é uma casca dura demais para vestir e ainda suportar o mundo.
Algumas coisas nesse novo paradigma me favorecem. Não poderia ser acusada de “incoerência”. Retoricamente falando, eis um bom argumento. Mas eles não abandonaram o princípio da não-contradição. Seria deixar a mala mais importante para trás. Até os perpectivistas, dentro de um corpo de explicações particular, precisa do princípio. Como disse, penso que é uma questão de estética, há um prazer em afirmar o nada. Há um prazer em se sentir superficialmente no fundo do poço.



Um comentário:
eia gente, comentem!!!!!!!!!
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