terça-feira, 28 de abril de 2009

Reflexões sobre o clássico!



Há algum tempo aprecio o futebol. A bem da verdade, desde muito pequena e influenciada por meu pai, aprendi a nomenclatura pra lá de difundida do esporte por excelência do nosso país. O primeiro grande jogo de que me lembro foi a amarga derrota da Seleção Brasileira para a Argentina na Copa do Mundo de 1990. Oitavas de final e sucumbimos diante do cabeludo Caniggia. Felizmente, nos dois anos seguintes tive a felicidade de ver o Cruzeiro campeão da Super Copa da Libertadores. Em 97 ainda pude conferir o Celeste levar a própria Libertadores contra o Sporting Cristal do Perú. Pois bem, foi a geração de Palhinha, Nonato e Dida que me convenceu, além do fanatismo de meu pai, a adotar a camisa azul e branca como paixão incondicional. Querelas a parte, penso que o futebol tem muito a nos dizer. São metáforas valiosas para a compreensão das coisas da vida. Inspirada por essa aposta e saudosa de minhas escolhas futebolísticas, resolvi discorrer sobre o clássico dos gramados mineiros. Ontem, dia 27 de abril, assisti ao clássico do meu estado, Atlético e Cruzeiro. Apesar da empolgação cabe aqui um juízo filosófico acerca do jogo. Adiantando o grand finale, ganhamos por cinco gols de diferença. Porém, o crucial da partida não foi a goleada. Apesar do supremo prazer causado aos torcedores, a chuva de gols somente refletiu um outro ponto mais interessante: o estilo do time. Se de um lado víamos um técnico tentar estratégias bizarras de organização tática, de outro podíamos notar a tranqüilidade de quem sabe o que é. Parafraseando Nietzsche: gelo liso é um paraíso para quem sabe dançar! O controvertido Adilson Batista escalou sem mais problemas o seu time tradicional no esquema 4.4.2. que se transformou rapidamente naquilo que a equipe precisava devido à flexibilidade e excelência dos seus jogadores. Já Emerson Leão tirou da cartola a pretensa solução para o Atlético com seus quatro volantes e Júnior, a estrela solitária na ponta esquerda. Teve quem pensasse que daria certo. Com a vantagem de dois resultados iguais, um empate seria primoroso saldo para o Galo. Com a marcação cerrada no meio, o Atlético seguraria o meio cruzeirense e numa sobra de bola oportuna Júnior colocaria Tardelli na cara do gol. Pois é, no papel até funciona, mas Leão esqueceu de verificar a qualidade de seus jogadores e a capacidade de avançar ou recuar com qualidade na hora oportuna. Para o torcedor que escuta a formação tática do seu time, parece mesmo que o esquema pode funcionar. A questão é de um lado o meio era formado por Ramirez, Wagner, Fabrício e Paraná e do outro lado do Mineirão tínhamos Carlos Alberto, Márcio Araújo, Renan e Rafael Miranda. No Atlético ainda havia um “homem surpresa” solto, à frente do meio, Lopes “inexistente” de Tal. No papel, o estilo do jogador não significa muito, mas é no campo que a excelência define a pendenga. Para aqueles que viram o clássico de domingo fica a certeza de que o meio cruzeirense é de mil e uma utilidades; sabemos que Ramírez marca e arma as jogadas como ninguém; que Wagner, nosso meia-armador, sempre volta e busca a sobra junto com os volantes; Marquinhos Paraná, disciplinado e estável, não se furta aos lances na lateral e, por fim, Fabrício, coordenador da defesa intermediária, tem uma mania irresistível de passar o meio de campo. Vá lá, o Cruzeiro está longe do carrossel de Cruyf, mas lucramos muito com a tal flexibilidade dos jogadores. A retranca do Atlético teria até funcionado se do outro lado não tivéssemos jogadores de grande qualidade técnica e entrosamento. Cabe aqui a pergunta: qual é melhor estratégia? Defesa ou ataque? Partir para a definição ou esperar e reagir? Aqui já não falamos mais de futebol, mas de questões existenciais: qual é o melhor modo de vida? Jogar com o regulamento nas mãos nem sempre é a melhor escolha, basta nos lembrarmos de 2007 e da vigorosa e humilhante vitória do Galo contra o Cruzeiro. A questão é mais antiga do que podemos imaginar. Um herói, dotado de areté (virtude) não entra em comparações. Ele é aristoi, excelente, virtuoso em qualquer intempérie. O melhor naquilo que faz zomba do adversário como zombaria de uma criança. O que está em seu peito não é a exigência burocrática da vitória, mas a naturalidade com que se sobrepõe sobre seu adversário. Assim o fez o atacante Kléber, imitando uma “galinha” e o “chorinho” do time alvinegro. Obviamente, cristãos que somos, repudiamos a iniciativa bélica do jogador. Diferentemente dos gregos, somos obrigados a engolir a exigência do fair play. Definição nossa: Fair play significa ganhar, porém não tripudiar. Como se o futebol fosse apenas um esporte técnico, isento das paixões e os jogadores apenas autômatos em campo. Ora, para o torcedor que se vê representado por seus onze jogadores nada mais catártico e prazeroso do que a desforra. Tal como fez Aquiles contra Heitor, o time azul criou a sua própria maneira de encenar a via-crúcis do adversário. Ontem, fomos certamente os soldados romanos, independente da moral ou do bom-senso. Como em um teatro grego, o público vibrou sentindo-se renovado e vingado de todas as provocações extra-campo. Isso é o futebol, caros senhores, feito de dribles, provocação, demonstração de superioridade e de alegria. Kléber deveria ter dito: desculpa meu caro Juninho, não queria ter feito o gol, mas não pude evitar, sinto-me culpado! Ora, eia, deixemos a hipocrisia de lado e aceitemos as regras tácitas do jogo ou então mudemos a preferência nacional. Que tal uma sóbria partida de xadrez?

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Causos de família.


Outro dia desses conversava com meu pai sobre as coisas da vida quando ele tirou da cartola a seguinte frase:
- Minha filha, "tapar o sol com a peneira" não é bom negócio.
Curiosa com o porquê da estória fiz cara de interrogação e ele completou explicando:
- Por que dá um xadrezinho terrível!
Esse é meu pai (risos)!!!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

O caminho

O caminho, by Gui


Vindo do supermercado, em saudável caminhada pela Via Expressa, fui surpreendida por um estranho fenômeno. Tive a nítida sensação, pela alma e pelo corpo, de viajar no tempo. Em poucos segundos voltei para um passado de data incerta, mas de experiência vivida. Costumo ter essa sensação quando mudam as estações. Hoje foi a vez de o outono levar-me a reviver, através do cheiro do ar, do cinza do céu e do vento forte, algo que a minha memória não podia acessar por esforço intelectual. Se não me engano, acabo de viver o que Proust chamou “memória involuntária” em sua Recherche. Considerando que eu tenha partilhado da experiência proustiana, o que isso pode significar? Não sei ao certo. Qualquer registro sobre um fenômeno não-discursivo se dá por pequenas aproximações e metáforas. À primeira vista, me parece que o tal fato pode ser visto como uma transcendência do vivido, oposta às pretensões estritamente racionais de decifração do mundo. Quero dizer, um fenômeno que vai contra a idéia de que a consciência basta a si mesma. Qualquer método científico aqui não teria vez, já que o ocorrido é alheio à vontade e não-mediado pelo discurso. É como se estivéssemos o tempo todo diante de hieróglifos e “cifras” que somente se revelam por um conjunto indeterminado de fatores e em momentos não esperados. Os hieróglifos não têm uma significação universal, pelo contrário, são tão particulares e subjetivos que só podem ser captados por uma série de lembranças que nem mesmo o indivíduo sabia que lhe pertencia. Meus quinze anos, na saudosa Divinópolis, que ainda não é “apenas um retrato na parede”, vieram de uma só vez, através de múltiplas sensações estranhas à razão. Parece que a lembrança involuntária, através de mecanismos extra-discursivos, ou seja, por um atalho desconhecido no caminho, nos leva a pensar acerca de uma busca que é nossa velha conhecida, a busca pelo eu, ou melhor, pela resposta à pergunta: que sou eu? Já adianto que a solução de Descartes não é suficiente para o caso em pauta. Sou uma coisa que pensa, sente e cuja memória, da qual não tenho total controle, faz vir à tona os mais intrincados segredos. A Busca do Tempo Perdido é a própria busca de um “eu” cambiante, como gostava de dizer o caro senhor Montaigne. Uma das vias para a resposta também não se deixa apreender totalmente, mas nos dá uma pequena amostra do que seria a delirante experiência do completo conhecimento de si.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O amor, amizade e outras coisas que valem a pena!!

foto by Vê

É finda a quaresma, tempo de reflexão dos cristãos!!! Que bom ser cristão, são apenas quarenta dias de reflexão, ou seja, um pouco mais de 10 % do tempo anual. Quem me dera esse luxo. A cabeça dos meus pares não pára, nem nos sonhos. Depois de uma aula cansativa, é hora de pensar as coisas boas e quiça pecaminosas da vida! Fiz 27 anos há menos de um mês e, para falar a verdade, pouca coisa mudou. Continuo teimosa e à procura!!... Como um velho amigo meu, continuo à procura... sem objeto, sem destino. Em verdade, considero-me com dois anos de idade, de vantagem ou de sofrimento. Como dizia nosso caro Schopenhauer: "a vida é um negócio que não cobre seus gastos". Hoje a Cinelli me fez voltar a escrever, uma amiga. Caros leitores raros ou inexistentes, falar de si mesmo sem ser piegas e limitado é o desafio dos desafios! mais difícil que final de libertadores! Montaigne bem o sabia. Meu amigo Thiago sempre escreve, ele está bem afastado desse meu tédio e incapacidade. Se eu soubesse me fantasiar de ficção!!! mas ainda não peguei o jeito, nem sei se um dia o terei. Enquanto isso, ensaio meus sentimentos, meio maneta, sem jeito... Preparo um escrito sobre as mulheres, espero que venha logo. Inté.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Compulsividade: estudo de caso, o carnaval!

foto by Vê



Caros leitores inexistentes, hoje estou compulsiva, preciso escrever. O remédio não faz mais efeito e não consigo dormir. Pois bem, vamos ablar sobre o carnaval, sobre a porcaria do carnaval. Durante o ano todo temos quatro dias para jogar tudo pro alto e sucumbir a Dionísio. Pois então, vou ficar em BH. Me diz qual Deus eu devo revenciar: à ordem beneditina? Nada a fazer, absolutamente nada a fazer. Todos perdem a razão, usam roupas coloridas, vão à desforra e eu, por vingança, vestirei preto, cinza, marrom... Escutarei música clássica e no almoço servirei salada! Serpentinas? Só se for da cerveja, porque essa meu bem, ah, essa eu mereço tomar, todas inclusive!! O que é um bêbado sozinho? É como um quadro do Picasso que nunca foi visto. Não tem graça, mas ficarei, eis o meu propósito. Ficarei bêbada vestindo preto e marrom, escutando um belo adágio ou quiçá um réquiem escatológico... Farei um estoque, é melhor não brincar com esses assuntos. O bar daqui de perto pode estar fechado. Decisões tomadas, agora é esperar. Vejamos quantas postagens vai render esse carnaval reprimido.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Defesa ou indefesa?

Cão, foto de Vê


Dia 13 de fevereiro, às 14:00 horas descobrirei!!! Foram três anos de espera, muitas mudanças, poucas em essência, a maioria dizia a respeito à forma. Meu objeto é um velho e conhecido amigo: o senhor Platão. Para quem começa agora, uma dica: escolham alguém menos famoso, oh trabalho que deu falar alguma coisa que já não tenha sido dita! E querem saber: não digo nada de novo, mas tenho um orgulho: a forma e a letra são minhas. O caminho para chegar ao "mesmo" é somente meu. Nestes três anos vários elementos me acompanharam: os amigos, os amores, viagens, noites vazias, noites alegres, vícios e virtudes. Acho que fiz um produto razoável do que me aconteceu. Platão? Somente um pretesto! Mestrado? Um rito de passagem! Fica a lembrança dos tais elementos.. Descobri algumas coisas, como, por exemplo: que um plano só existe para não ser cumprido; que um ponto de vista nunca é original; que existem aqueles piores e muito melhores que você; que ser mediano não é tão ruim assim; que a vida importa mais que os títulos; que os títulos fazem falta quando você menos espera...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sobre a morte

Noite, foto de Vê


A morte, além da simples putrefação, é que pode levar o homem a refletir sobre a existência. Ela, que parece ser um fato, perde-se em finas nuanças quando colocada diante da finitude. O fato da morte vale mais pela sua espera inglória e certa do que pela perda efetiva dos sentidos e o apodrecimento da carne. Eis a questão, o dado material torna-se quase rarefeito diante do sentido atribuído a vida. Não se diz: perdi um conjunto de células e tecidos, mas: perdi um amigo! É diante de uma caveira que Hamlet chega ao nível mais profundo do pensamento. "Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre / Em nosso espírito sofrer pedras e setas / Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja, / Ou insurgir-nos contra um mar de provocações / E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais. / Dizer que rematamos com um sono a angústia / E as mil pelejas naturais-herança do homem: / Morrer para dormir... é uma consumação Que bem merece e desejamos com fervor [...]" 3.1.108. Hamlet. Montaigne, um filósofo que dedicou à questão da morte dois de seus Ensaios, viveu ele próprio, a experiência dolorosa e profunda que deu origem a uma mudança fundamental de sua vida: a morte de seu melhor amigo, Etienne La Boétie. Perguntado sobre o porquê de tamanha amizade e afeto, Montaigne respondeu: "Parce que c'etait lui" (Porque era ele). Parce que c'etait moi" (Porque era eu). A experiência diante da morte tem a singularidade de despertar um outro problema, o significado dos parcos dias que se vive. Entre os gregos a alegoria da morte tinha outro significado. A mãe de Aquiles preferiu uma vida curta e gloriosa para o filho do que vê-lo passar seus dias na inteira mediocridade. Não sei se optaria pelo mesmo caminho, certo é que as vidas curtas e bem orientadas entram para o livro das coisas que merecem ser contadas. Nascer, crescer, procriar... não é matéria de um romance. Nascer, lutar e fazer algo de ti impor-se ao mundo, isso vale a pena não esquecer! Portanto, vive-se bem, mesmo que pouco; vive-se de modo mediano, embora a morte chegue apenas aos 90 anos. Não queiramos tudo: vida longa e gloriosa! Outra questão se insurge: o que é viver bem? Qual o melhor modo de vida? Meus caros, talvez seja este o cálculo mais difícil, a ponderação mais auspiciosa. Cuidemos de nós mesmos! A tarefa é semelhante aquela de Sísifo, inglória, porém necessária para quem já a iniciou. Seria um castigo a finitude? Saramago pensou sobre isso ao escrever seu: Intermitências da morte. Segundo nosso autor, a morte resolvera entrar de férias, sem tempo para voltar. Como fazê-lo? Sem a morte, como proceder? Será a vida dotada de mesmo sentido e valor se ela, a carrancuda, não existisse? De Homero a Woody Allen, é possível não pensar no fim? A pesquisa inspira cuidado e método, continuamos a conversa depois!

sábado, 13 de dezembro de 2008

2009- Azul



Segundo as sábias máximas de ordem mística, 2009 será o ano das grandes parcerias, isso porque 2+0+0+9 é igual a 11. Por sua vez, a soma de 1+1 tem como resultado o número 2. O argumento é forte, irrefutável. Não se duvida do cosmos. Ouvi essa explicação pitagórica de uma “estudiosa” do mundo astral. No fim do ano vale tudo, desde o panetone intragável até as numerólogas. Conjecturas e previsões estão liberadas pela crítica. Realmente gostaria de saber o que significa “ano das parcerias”. Creio eu que o crime organizado fechará bons negócios entre os seus pares. Talvez os casamentos e namoros fracassados ainda perdurem em 2009, em nome do número 2 e das parcerias. Sofrimento para uns, alívio para outros. Os sacerdotes modernos não são nem um pouco modestos. A bem da verdade os sacrifícios diminuíram, exceto o maior deles: agüentar os tarólogos e intérpretes dos astros. Cheguei a fazer meu mapa astral, mas me decepcionei, parece muito amplo e feliz. Crendices a parte, cultivo alguns rituais. Jogar papéis inúteis no lixo, fazer promessas impossíveis, enfim, esperar milagres que não virão. Ser mais prudente, ter um cadinho de bom senso, não gastar todo o dinheiro com os amigos em volta de uma boa mesa etc... Como tudo é permitido na presente data, inclusive os truísmos mais piegas, lá vai minha lista:

Não aceitar convites por educação e nem ser educada quando é desnecessário;

Frases menos impactantes e amizades menos inúteis.

Voltar à academia e me lembrar das refeições.

Acalmar o coração, mesmo que superficialmente.

Doar meus periquitos que me entediam e sujam o chão que não quero limpar.

Ver o mar

Beber menos e melhor, em boas ocasiões, se e somente se estiver ao lado dos meus pares.

Como meu ano é o 5, investir nas roupas azuis.

Enfim, gastar todo o meu dinheiro com os amigos em volta de uma boa mesa!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Diálogos com meu amigo Darim!



Façamos uma aposta: Cada um é o que pode ser! Mesmo que não mais acreditemos na idéia de “natureza moral” sobra-nos aquela impressão de identidade e constância perceptível no outro. Quando a regra não resolve as pendências nos surpreendemos – “como pôde agir daquela maneira?”. Assim fazemos uma espécie de catálogo de caracteres, criamos os tipos morais com a nossa medida “nada universal”. E como falhamos nesta tarefa! Falhamos a todo o momento. Nosso método não é nada científico, a não ser pela capacidade que temos de criar os conhecidos argumentos ad hoc. Julgamos, sem reconhecer que julgamos, e mesmo quando dizemos: “isto é um fato” ainda fazemos julgamentos, mais ou menos precisos. A consciência, produto quase sempre nascido de nosso auto-engano, estabelece as distinções do julgar. Isenção, experiência, espírito apurado, noções avaliativas bem delineadas e boa-fé são os elementos necessários. Problema posto: estas são as noções mais incertas que poderíamos forjar. Sua permanência também é um efeito da consciência, um estado aparente de coerência e estabilidade. A parte tudo isso, julgamos. E porque não o faríamos? Entre os juízos alguns se destacam. O juízo vacilante diz – tenho certeza de que é assim, como poderia não sê-lo? O juízo cético prefere dizer – pode ser que sim, pode ser que não. O juízo tirânico ataca – está provado que sim e isto é um fato. O juízo parcimonioso dirá – parece-me que esta é uma solução razoável. O juízo filosófico volverá contra todos a seguinte observação – sob todas as perspectivas mencionadas, a do vacilante, do cético, do tirânico e do parcimonioso, há um conjunto de pressupostos morais que faz com que seus posicionamentos digam mais deles próprios do que do fenômeno em si. O objeto pesquisado? Ah, este é somente um ponto em comum para o desfile de suas vaidades! Boa interpretação? Ou mais um juízo particular? Os dois. E porque não podemos juntar palavras como: verdade e experiência pessoal? Porque ainda devemos tributos à metafísica e à modernidade a ponto de aceitarmos como indubitável o afastamento entre a experiência e a noção de verdade? Falando de si, desde que apurada a forma, falamos do todo. Montaigne é o nosso argumento de autoridade. Antes de Descartes e já tão pós-moderno! Dizia o fidalgo – cada ser humano porta em si a forma universal da humanidade. Estendendo a conclusão à questão inicial podemos dizer – julgando a partir de si, desde que apurada a forma, julgamos bem! Se o “si” pode ser medida de verdade e talvez a única medida, vale a pergunta: não terá o homem que conhecer-se profundamente? O fenômeno do vivido e a sedimentação do caráter não deveria merecer o mais alto posto nas conversas filosóficas? Porque se a minha experiência é a medida do meu juízo vale a equação: quanto mais rico é o meu viver, mais rico será o meu julgar. Enriquecer o vivido não é tarefa da filosofia. A ela cabe a potência reflexiva sobre o vivido, mas não a matéria do mesmo. A arte sim, esta pode conferir traços mais dignos às misérias existenciais. Viver como se fôssemos uma obra de arte inacabada cujo final não poderá ser por nós contemplado. Diante da morte a obra é apresentada aos outros e será grandiosa ou vulgar, a depender da forma tomada até então. Diagnóstico cruel? Talvez, verdade necessária! Tomar-se a si mesmo como um fenômeno estético, digno de ser percebido, penso que eis a tarefa maior. Ter consciência que aquilo que aparece é tudo que temos, porque tudo nos aparece de alguma forma. Para além da aparência apenas há uma outra aparência da essência percebida. Desfeito o dualismo o que sobra? O efeito, a superfície, a escritura, o aparente. E nem todas as aparências se equivalem, existem as nobres e as vulgares e entre uma e outra cor uma gama infinita de matizes.

Rapidinhas dogmáticas!



Espasmos



Não seria a depressão aquilo que os antigos denominavam como “melancolia”? Certo mal estar nauseante que faz o homem trocar tudo que é ativo e está em movimento pela apatia do sono ou da reclusão? Certo sorriso amarelo para a vida, olhar de gato quando acorda, como se dissesse: grande coisa estar aqui! Será que tal melancolia tem a ver com o modo de vida que levamos? Burgueses apáticos. É o que sugere Buñuel em seu Anjo Exterminador. Sair para que? Para onde? - vamos ficar, aqui é mais seguro. A pura falta de energia e força para o novo. Isso o velho Nietzsche já o sabia: o homem moderno não sabe sair nem entrar.



Talvez desse não-saber-o-que-fazer tenha origem a imensa quantidade de quinquilharias que inventamos ao nosso redor. Adornos que devem dar sentido, preencher os vazios, sempre mais fundos que qualquer tentativa. Alguns menos fundos se contentam, para os outros existem quinquilharias gigantes. Para o homem que se sabe vazio é preciso outros preenchimentos, mais sutis, mais autênticos. A escrita é um deles.



A escrita é patética, interessada e terapêutica. O verdadeiro escritor não escreve para os outros, escreve para si, purgando-se de tudo que o sufoca, prende. Outras escritas feitas para informar, formar, instruir, advertir, essas e todo o resto se dividem em duas classes: retórica e manuais de auto-ajuda.


Quem é o leitor? Nenhum compromisso tenho com os leitores, talvez nem chegue a ter um deles algum dia. Quando conserto uma frase ou tento escrever de maneira mais inteligível faço-o por mim mesmo, com o único interesse de que a idéia que se passa naquele momento em minha mente não seja mal expressa através das palavras. Quem escreve para o leitor constrói discursos, sempre adequados a uns e antipatizados por outros. E o que isso tem de importante? Agradar ou desagradar não me interessa.



A vida interior de cada um é, para o próprio indivíduo, a única coisa digna de verdadeira preocupação. O modo como se vive também é a única matéria realmente importante a se pensar. Por último, o significado da morte é tão somente o assunto que mais nos leva a mudar nossas vidas.



Quem somos nós? Ganhamos muito se descobrirmos o significado ou pelo menos alguns traços do próprio eu, ao invés de totalizarmos as experiências singulares assumindo compromisso com qualquer axioma da natureza humana. A tentação de generalizar é tão grande quanto é comum a preguiça de afirmar categoricamente o relativismo absoluto. Tentando ficar entre o lá e o cá, ainda assim, não ganhamos muita coisa. Talvez voltemos a investir nos manuais da Corte como os de Pascal ou Gracian. Talvez a leitura do dia seja: Os Caracteres Humanos, do Conde de La Rochefocault.



Estão tentando matar o Eu, depois de matarem, ou tentarem matar Deus, o sentido, o autor etc... Ou será que já conseguiram e “eu” ando, por assim dizer, iludida de mim mesma? Anyway, prefiro acreditar que ainda sobrevive alguma identidade ou pelo menos a sua ilusão. Qual a diferença entre a existência factual e a existência imagética? Para os equívocos mais variados isso não importa muita coisa. Além do mais, brincar com a morte do “eu” já virou uma tendência cult (Shakespeare não podia imaginar que o tataraneto intelectual de Hamlet escreveria uma tese de doutorado).



- Estou fora de órbita; - não vejo sentido no mundo; - tudo é perspectiva; Sem considerar a validade destas frases percebe-se o quanto elas caíram no gosto do povo. Ai de quem não admitir a perspectiva em meios acadêmicos. Inventamos a estética da melancolia e do niilismo. Construímos discursos sobre o não-ser a todo o momento como se isso fosse muito simples de digerir. Ao mesmo tempo em que bradamos o fim da verdade, marcamos a consulta no psicanalista e corremos atrás das receitas de medicamentos antidepressivos. Estou enganada ou sobraram parafusos na montagem da estante? Será mesmo que sabemos, vitalmente, sobre tudo que dizemos? Mais um ponto: será que queremos a vida que contamos ou fingimos que aceitamos para entrar na ordem do “normal”. É pelo desejo de normalidade que enlouquecemos? Paradoxal isso.



A questão continua: trocar a tradição pelo quê? Se a questionamos algum dia é porque a velha matrona cheirava mal a alguns narizes mais sensíveis, disso não duvido. O que pergunto é: o quê colocamos em troca? Alguns mais ferrenhos me diriam: não queira nada em troca, mulherzinha! Desculpe minha mesquinharia feminina, mas prefiro um urubu na mão, cheirando mal e me fazendo companhia do que duas andorinhas amarelas no horizonte. Falo por mim, mas não almejo só a minha pessoa, solidão é uma casca dura demais para vestir e ainda suportar o mundo.



Algumas coisas nesse novo paradigma me favorecem. Não poderia ser acusada de “incoerência”. Retoricamente falando, eis um bom argumento. Mas eles não abandonaram o princípio da não-contradição. Seria deixar a mala mais importante para trás. Até os perpectivistas, dentro de um corpo de explicações particular, precisa do princípio. Como disse, penso que é uma questão de estética, há um prazer em afirmar o nada. Há um prazer em se sentir superficialmente no fundo do poço.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Je ne sui pas un femme facile


Nossa sociedade, que se diz emancipada de mitos e preconceitos sobre a condição da mulher, ainda tem muito a explicar. Quando digo: nossa sociedade, incluo a todos, homens e mulheres, cada um com a sua parcela peculiar de contribuição para a proliferação de uma perspectiva mesquinha e humilhante sobre o sexo feminino. Trata-se não apenas de uma simples perspectiva teórica, mas de uma verdadeira incorporação daquilo que julgam ser o quinhão e o destino da mulher, perpassando desde os momentos mais cotidianos até os mais importantes.
Justamente o que penso desta perspectiva ou deste discurso sobre a mulher é o que eu gostaria de tentar apresentar daqui em diante. A metodologia que utilizo aqui é aquela criticada no meio científico, que não fortuitamente é composto, na sua maioria, por “homens” marcados pela exigência do método more geométrico. Não tenho dados quantitativos, não recorro às estatísticas e nem mesmo às amostras uniformes. Não me importo se a comunidade científica ou filosófica reconhecerá ou não a profundidade e a validade do que eu digo. Enfim, não escrevo para acrescentar nada à história dos estudos sobre o preconceito sobre a mulher. Escrevo com o simples intuito de esclarecer a mim mesmo o que eu sou. Vale dizer, nessas linhas estão presentes certas ponderações marcadas especialmente pela parcialidade e pelo interesse.
Na história da filosofia clássica a experiência não é vista com bons olhos. Já para o senso comum ela parece ter um papel de grande destaque. É a partir da experiência que todos falam e, consequentemente, julgam. Confesso que nem toda experiência ou vivência é lá muito produtiva e que nem todo discurso ou opinião merece ser ouvido. Mas em se tratando deste assunto, da condição da mulher, acredito que é delas, das mulheres, que uma espécie de manifesto empírico deve surgir.
Desde que eu nasci e isso já faz algum tempo, escuto e reproduzo determinadas proposições sobre a mulher. Hoje reproduzo muito menos os discursos mais degradantes e preconceituosos, mas percebo que restam vestígios, não muito sutis, desta mesma perspectiva. Enganamos-nos muito sobre o fim do preconceito porque os gestos mais absurdos são até mesmo criticados e abominados pelos próprios homens. Daí pensamos: ora, o mundo mudou e mudou para melhor. Hoje em dia a mulher se casa por amor, tem quantos filhos quiser e ainda pode ganhar mais que o marido em sua profissão. Por mais ridículo que possa parecer este discurso ele tem a sua eficácia, já que há apenas duas, somente duas gerações anteriores, isso não era óbvio.
Um passo a mais (para mulheres crentes de sua emancipação): é possível escutarmos outro discurso, esse mais ousado: o que defenda a total desvinculação da maternidade e do casamento para a realização da essência feminina, já que estas não são condições para que as coitadinhas sejam efetivamente felizes. Vejam bem, mesmo considerando todos estes discursos que acredito, sinceramente, serem de autoria dos mesmos feitores que defendiam a mulher do forno e fogão, não aposto nem um dinheiro de que isto reflita e resolva a verdadeira condição da mulher em nossa sociedade (Brasileira... Mineira... Divinopolitana – com todas as ressalvas da minha anti-metodologia). E porque digo isso? Basta olharmos um pouco a nossa volta e percebemos que nem somos tão mais esclarecidas do que nossas avós. Sofremos do mesmo mal que as anciãs, só que de modo diferente. Ainda hoje somos definidas sempre em frase comparativas. Se gostamos de futebol, atenção, não temos o direito de desconhecer as regras, devemos saber profundamente qual é o esquema tático, os melhores jogadores em uma determinada posição (vá lá: médio-volante) e não podemos cometer gafes em nenhuma ocasião. Pois se algum deslize é cometido não somos julgadas como más-entendedoras do esporte, somos contempladas com dois julgamentos possíveis: um complacente e caridoso que nos perdoa pela burrice, afinal, somos mulheres; outro mais grosseiro (neste caso, a mulher certamente não está na condição de fêmea solteira no cio) nos cobra mais rigor e atenção, afinal se você quis entender de algo que não lhe diz respeito, ora, é preciso saber e saber bem. Em relação aos trabalhos domésticos vivemos o deslumbramento tecnológico e ou financeiro. Passamos as tarefas domésticas para as máquinas e, quando possível, para as faxineiras. Sabe quem limpa minha casa quando a sujeira torna-se insuportável? Adivinhem? Uma mulher, uma mulher negra e faxineira. Grande emancipação conquistamos, passamos o sub-serviço para outra mulher que quase sempre nem é vista como participante do mesmo gênero que o nosso. Engraçado, não? A definição da mulher, a nossa condição passa por caminhos complexos. Não basta nos livrarmos do óbvio, é preciso caminhar mais e caminhar melhor. A relação homem-mulher (minha incapacidade teórica e empírica obriga-me a deixar o caso das lésbicas de lado, pelo menos por hora) é segundo penso, o lugar mais apropriado para encontrarmos a contraprova aos avanços do sexo feminino em nossa sociedade. Daqui em diante assumo todo o risco de ser parcial e conto apenas com a expectativa de que algumas leitoras identifiquem-se com minhas descrições e corroborem meu pensamento.
Sutilmente, e ai encontra-se o perigo, os homens nos colocam no lugar que nos foi reservado pelo discurso dominante. A subordinação não se apresenta como tal, mascara-se de diversas formas, sempre belas ou práticas.
Diz o homem: - querida, é mais prático que você cuide da nossa alimentação, afinal você cozinha tão bem meu amorzinho e eu seria um desastre na cozinha.
Responde a mulher: benzinho querido, você falando desse jeito é claro que eu vou cuidar de tudo.
Continua o homem: olha amor, depois eu lavo a louça para te poupar.. Você sabe que faço tudo por você, não sabe?
Finaliza a tonta com um sorriso angelical dizendo para si mesma: nossa! que homem maravilhoso, compreensivo, adoro cuidar de nós dois. Vejam bem mulheres, a tarefa é, por natureza, vista como pertencente à mulher, mas, em casos extraordinários, geralmente ocorridos nos dois primeiros anos de casamento, o homem agrada sua mulher “poupando-a” de mais uma tarefa natural e feminina: lavar a louça. Em outros momentos, quando o assunto em pauta no recinto é o do casamento, minha nossa, a prerrogativa do desejo é sempre da mulher. Nem mesmo a minha experiência de ex-casada vale nesse momento. Todos tendem a pensar o quanto seria maravilhoso para a mulher ser pedida em casamento. A bem da verdade, eu preferiria fazê-lo eu mesma, e olha que já fiz, mas não, a prerrogativa do pedido é sempre do sexo forte. Querelas a parte, se eu engravidasse um homem, casava na hora! Oh pobres seres femininos, o que será de nós? Talvez seja preciso inventar uma outra linguagem e um outro mundo para as nossas consciências livres, um não-lugar!

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Dear Vogler! Mulheres à venda!



Alexandre Vogler, artista plástico, provavelmente mais um adepto da arte conceitual, lançou em Bh sua mais nova exposição: "Base para unhas fracas". As fotos apelativas causaram reações esperadas e revoltosas. Absolutamente não se trata da venda de nenhum produto, acreditem! Eis um exemplo do que podemos chamar de hipérbole artística. Mas poderiam me perguntar ou mesmo perguntar ao artista o que ele realmente quer com isto? Arte conceitual: o que a exposição provoca é o espanto, sentimento já quase esquecido pela sociedade do espetáculo. Um espanto que faça o espectador olhar para seus próprios valores, tão arraigados. Mulheres podem ser "usadas" para vender qualquer coisa, utilizando de partes de seu corpo desnudo, em propagandas de cerveja, chinelo, adoçante, batom etc... Ponto pacífico: as mulheres, com seus pedaços de corpos, nos persuadem a comprar! Ponto não pacífico e origem da intervenção artística de Vogler: os pedações de corpos são a prova da reificação da mulher em nossa sociedade. WARNING! Ei mulheres, somos tratadas como coisa que serve para vender outras. Te assusta a imagem de Vogler? Mas porque não te assustas com todos os outros usos da mulher? Sutilezas a parte, é na criação absurda que ainda é possível assustar-se com os seus próprios valores. Diga-se de passagem: valores coisificados em relação ao sexo feminino.


Vídeo, pintura, fotografia e escultura de Alexandre Vogler. Galeria Carminha Macedo, Rua Bernardo Guimarães, 1.200, Funcionários, (31) 3226-3712. De segunda a sexta-feira, das 10h às 19h; sábados, das 10h às 14h. Até 13 de dezembro. Entrada franca.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

As mulheres de Bilac






Abram-se às mulheres todas as portas! Porque, enfim, nós, os homens, já temos contribuído tanto para plantar na Terra o domínio da tolice e da injustiça — que não era mau saber se o outro sexo não é capaz de ter mais juízo do que o nosso!…

Olavo Bilac. In:Gazeta de Notícias 18/8/1901

Primeiro encontro




A empreitada não é fácil, escrever é uma arte escorregadia! Ter algo interessante para contar é bastante comum, o problema é dar aos pensamentos uma bela forma. Tarefa própria da retórica e cara aos filósofos e homens da literatura. O estilo é quase uma espécie de modo de viver, junto com a bela letra quase sempre estamos diante de um pensamento forte, que vale a pena ser descrito. Vejo a escrita como um acesso ao conhecimento. Porém, dura é a dor do parto. E o rebento deve vir bem formatado, caso contrário corre-se o risco de não vingar. Espero nesse meu novo cantinho expressar algumas idéias, insurgir contra algumas bobagens da sociedade espetacular e, principalmente, dialogar com meus pares. Eia, tentemos!