
Há algum tempo aprecio o futebol. A bem da verdade, desde muito pequena e influenciada por meu pai, aprendi a nomenclatura pra lá de difundida do esporte por excelência do nosso país. O primeiro grande jogo de que me lembro foi a amarga derrota da Seleção Brasileira para a Argentina na Copa do Mundo de 1990. Oitavas de final e sucumbimos diante do cabeludo Caniggia. Felizmente, nos dois anos seguintes tive a felicidade de ver o Cruzeiro campeão da Super Copa da Libertadores. Em 97 ainda pude conferir o Celeste levar a própria Libertadores contra o Sporting Cristal do Perú. Pois bem, foi a geração de Palhinha, Nonato e Dida que me convenceu, além do fanatismo de meu pai, a adotar a camisa azul e branca como paixão incondicional. Querelas a parte, penso que o futebol tem muito a nos dizer. São metáforas valiosas para a compreensão das coisas da vida. Inspirada por essa aposta e saudosa de minhas escolhas futebolísticas, resolvi discorrer sobre o clássico dos gramados mineiros. Ontem, dia 27 de abril, assisti ao clássico do meu estado, Atlético e Cruzeiro. Apesar da empolgação cabe aqui um juízo filosófico acerca do jogo. Adiantando o grand finale, ganhamos por cinco gols de diferença. Porém, o crucial da partida não foi a goleada. Apesar do supremo prazer causado aos torcedores, a chuva de gols somente refletiu um outro ponto mais interessante: o estilo do time. Se de um lado víamos um técnico tentar estratégias bizarras de organização tática, de outro podíamos notar a tranqüilidade de quem sabe o que é. Parafraseando Nietzsche: gelo liso é um paraíso para quem sabe dançar! O controvertido Adilson Batista escalou sem mais problemas o seu time tradicional no esquema 4.4.2. que se transformou rapidamente naquilo que a equipe precisava devido à flexibilidade e excelência dos seus jogadores. Já Emerson Leão tirou da cartola a pretensa solução para o Atlético com seus quatro volantes e Júnior, a estrela solitária na ponta esquerda. Teve quem pensasse que daria certo. Com a vantagem de dois resultados iguais, um empate seria primoroso saldo para o Galo. Com a marcação cerrada no meio, o Atlético seguraria o meio cruzeirense e numa sobra de bola oportuna Júnior colocaria Tardelli na cara do gol. Pois é, no papel até funciona, mas Leão esqueceu de verificar a qualidade de seus jogadores e a capacidade de avançar ou recuar com qualidade na hora oportuna. Para o torcedor que escuta a formação tática do seu time, parece mesmo que o esquema pode funcionar. A questão é de um lado o meio era formado por Ramirez, Wagner, Fabrício e Paraná e do outro lado do Mineirão tínhamos Carlos Alberto, Márcio Araújo, Renan e Rafael Miranda. No Atlético ainda havia um “homem surpresa” solto, à frente do meio, Lopes “inexistente” de Tal. No papel, o estilo do jogador não significa muito, mas é no campo que a excelência define a pendenga. Para aqueles que viram o clássico de domingo fica a certeza de que o meio cruzeirense é de mil e uma utilidades; sabemos que Ramírez marca e arma as jogadas como ninguém; que Wagner, nosso meia-armador, sempre volta e busca a sobra junto com os volantes; Marquinhos Paraná, disciplinado e estável, não se furta aos lances na lateral e, por fim, Fabrício, coordenador da defesa intermediária, tem uma mania irresistível de passar o meio de campo. Vá lá, o Cruzeiro está longe do carrossel de Cruyf, mas lucramos muito com a tal flexibilidade dos jogadores. A retranca do Atlético teria até funcionado se do outro lado não tivéssemos jogadores de grande qualidade técnica e entrosamento. Cabe aqui a pergunta: qual é melhor estratégia? Defesa ou ataque? Partir para a definição ou esperar e reagir? Aqui já não falamos mais de futebol, mas de questões existenciais: qual é o melhor modo de vida? Jogar com o regulamento nas mãos nem sempre é a melhor escolha, basta nos lembrarmos de 2007 e da vigorosa e humilhante vitória do Galo contra o Cruzeiro. A questão é mais antiga do que podemos imaginar. Um herói, dotado de areté (virtude) não entra em comparações. Ele é aristoi, excelente, virtuoso em qualquer intempérie. O melhor naquilo que faz zomba do adversário como zombaria de uma criança. O que está em seu peito não é a exigência burocrática da vitória, mas a naturalidade com que se sobrepõe sobre seu adversário. Assim o fez o atacante Kléber, imitando uma “galinha” e o “chorinho” do time alvinegro. Obviamente, cristãos que somos, repudiamos a iniciativa bélica do jogador. Diferentemente dos gregos, somos obrigados a engolir a exigência do fair play. Definição nossa: Fair play significa ganhar, porém não tripudiar. Como se o futebol fosse apenas um esporte técnico, isento das paixões e os jogadores apenas autômatos em campo. Ora, para o torcedor que se vê representado por seus onze jogadores nada mais catártico e prazeroso do que a desforra. Tal como fez Aquiles contra Heitor, o time azul criou a sua própria maneira de encenar a via-crúcis do adversário. Ontem, fomos certamente os soldados romanos, independente da moral ou do bom-senso. Como em um teatro grego, o público vibrou sentindo-se renovado e vingado de todas as provocações extra-campo. Isso é o futebol, caros senhores, feito de dribles, provocação, demonstração de superioridade e de alegria. Kléber deveria ter dito: desculpa meu caro Juninho, não queria ter feito o gol, mas não pude evitar, sinto-me culpado! Ora, eia, deixemos a hipocrisia de lado e aceitemos as regras tácitas do jogo ou então mudemos a preferência nacional. Que tal uma sóbria partida de xadrez?















