
domingo, 3 de janeiro de 2010
2010, eu e a garrafa

quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Cinema e coisas de gênero

Se hoje a situação parece dar sinal de mudança não podemos dizer o mesmo de cinqüenta anos atrás. A questão melindrosa é que nós mulheres de 2009 não vivemos sob a simbologia do século XXI. Pelo contrário, fomos educadas e criadas por mães e pais nascidos nas décadas de 50 ou 60. Fatos marcantes do século XX foram determinados por atores masculinos. Posso conjeturar que Eva Braun fosse uma mulher bem malvadinha, mas seu grau de excelência na escola dos terrores está infinitamente abaixo do seu marido estimado. Quem entrou para a história? Ele, o bigodinho anti-semita.
No cinema em geral a mimesis é perfeita e as coisas caminham segundo o paradigma cromossômico do XY. Alguns exemplos retóricos: Don Vito Corleone (Poderoso Chefão), Rocky Balboa, Falcão, Jece Valadão, Joe Kidd, Alex de Large (Laranja Mecânica), Tony Montana (Scarface), Travis Bickle (Táxi Driver), Dave (2001), William Munny (Os imperdoáveis), O leão macho (O rei Leão), King Kong (porque não era uma fêmea heim?), ET, O Exterminador do Futuro, Blade Runner, Karate Kid, Jerry Maguire, Touro Indomável, Doze Homens e uma Sentença, etceteras infinitas.
Veja bem, não tenho a intenção de criticar os filmes, pelo contrário, quase todos os supracitados são bons, mas são estrelados por homens. Alguém já imaginou uma versão feminina do Falcão (Stallone)? Quando viro o meu colar eu penso no meu caminhão!
Fato é que existem exceções e querem saber, as tais são as melhores, de mais alto nível cinematográfico. Ainda que tenha existido a Dama do Lotação aqui nos trópicos, junto com Tieta do Agreste e as insuportáveis Helenas de Manoel Carlos, houve alguém que nada mais fez durante sua carreira do que dar voz às mulheres. Esse sujeito se chamava Ingmar Bergman. Em minha opinião interesseira trata-se do mais genial de todos os cineastas. Não que todos os outros não fossem bons, mas Bergman tem uma essência distinta. Por isso, uso esse meu ínfimo espaço, de raros leitores, para lembrar do que não pode ser esquecido. Persona, Gritos e Sussurros, Morangos Silvestres, Sétimo Selo, Cenas de um casamento, Da vida das marionetes, Fanny e Alexander são filmes imprescindíveis para todas e todos aqueles que gostam de cinema e que, por acaso, apreciam o pensamento.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
A lista do mês!
Os aplausos
1. Ao divertido Mendonça, personagem da Grande Família, mais especificamente, ao ator Tonico Pereira. Na minha humilde opinião trata-se de um ícone do enlatado, o anti-herói e bravo defensor da vida boêmia!
2. Aplausos para a mostra de filmes do Canal Brasil que começa dia 9 de outubro, sempre às 00:45: " Um certo olhar francês". A mostra trará os grandes clássicos do cinema europeu com destaque para o "Acossado" e La belle de jour"!
3. Aos vinhos brasileiros, especialmente aqueles produzidos no Vale do São Francisco. Graças aos amigos entendidos pude descobrir as maravilhas dos lados de cá. De lá e de outras regiões, destaque para o espumante Pericó e Rio Sol rosé. Como já disseram e não sei quem foi: é a verdadeira felicidade engarrafada!
4. Aplausos para o rebento honesto, o competente Diogo Nogueira. Não bastasse a origem, o danado faz um som excepcional, digno que quem aprecia o samba inteligente da família. Escutem o seu: "Tô fazendo a minha parte", vale muito! O timbre é do pai e o resto é do filho!
5. Quanto aos livros dois aplausos um pouco atrasados eu confesso: "Ms. Dalloway" e "A mulher de trinta anos". Virginia Woolf e Balzac são mais próximos do que imaginamos. Grandes mulheres e seus eternos conflitos. Até parece que estou num espelho, daqueles do velho João Nogueira!
6. Outra dica de vinho, o "Concha y Toro", Sauvignon blanc, reservado (2004). Custa pouco, traz felicidade e prazer por apenas 17,00 reais a garrafa... Leve, harmonioso e amigo, uma garrafa por cabeça.
Vaias:
1. Ao campeonato brasileiro que de tão ruim consegue quase empatar cinco times na reta final. Prá mim o Palmeiras vence, apesar de... (já viram a tabela?). Minha maior premunição é quanto ao Atlético Mineiro (termina entre o quinto e sétimo lugar... jogos difíceis pela frente).
2. Vaias para mais uma novela do nosso velho conhecido "Manoel Carlos": Viver a Vida! Como diz o meu grande amiguinho Adnet: "Cara, a vida é boa demais, larga essa novela e vai viver a vida...". Grande porcaria.. Apartamentos de 10 milhões, Paris, amor, traição, periferia bandida... Cá..cá...cá. É sério? As vezes me pergunto. O pior é que é!
3. O preço do queijo. Quem é dona ou dono de casa já deve ter percebido. Um simples queijo minas está custando a bagatela de 25,00 reais o quilo, acreditam? Deixei de comer queijo, troquei pelo patê de atum com maionese...
4. Vaias pra aquela mocinha bunita e loirinha que apresenta o Video Show (ruim coitada); Vaia pra reforma que estão fazendo no 204 (eu moro no 104, entenderam?)!, Vaia para todos os deliverys que não entregam no Padre Eustáquio (Habibs, Mac donalds, restaurantes da Zona Sul e cia) e uma vaia bem grande para o único restaurante que existe perto da minha casa: comida ruim, cheio de gente mal educada e sem qualidade.. ai jesus.. alguém sabe de um apartamento pra alugar?
domingo, 6 de setembro de 2009
Censura
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Lei antifumo
segunda-feira, 27 de julho de 2009
A Poços de Caldas que eu vi
A propósito do assunto, acabo de voltar de uma viagem revigorante. Os quatro dias em Poços de Caldas confirmaram a posição defendida logo acima. Cidade muito charmosa e bem cuidada que compensa o esforço em percorrer os quase quinhentos quilômetros que a separam de Belo Horizonte. Não bastasse as belezas naturais e a arquitetura da cidade (relato esse que deixo a cargo do geógrafo), conheci algumas pessoas interessantes, gente da maior e da menor valia. Aqui assumo o direito de emitir juízos de valor que, por mais fortes que sejam, a mim não me parecem exagerados. A de maior valia é mulher, mãe, viúva e professora aposentada. Tem as posições mais inusitadas para o seu perfil. Quem apenas lesse suas credenciais, as tais apresentadas por mim, dedicaria-lhe certos adjetivos. Dentre eles vejamos os possíveis: conservadora, pacífica, amável, avessa à mudanças, dedicada, preocupada e moralista. Alguns desses termos lhe caem bem, outros nem tanto. De alma leve e com muita estrada percorrida, se abstêm de qualquer julgamento moral ou se o faz logo em seguida solta uma risada indescritível que ameniza sua perspectiva, como quem dissesse: "talvez seja isso!". O seu valor está exatamente nessa incerteza e na tolerância que dela provêm. Ao não adotar posições extremadas permite a aproximação de outras perspectivas, não sem ironia é claro. O bordão da sua existência, no meu modo de ver, é o deixar viver, não sem crítica ou reflexão, mas com a tranquilidade de quem só se preocupa com está em seu alçance. Para celebrar o contraste com tudo isso me esbarrei com uma pessoa de menor valia. De burrice incontestável e estado de consciência alterado somente conseguiu mostrar sua intolerância e decadência. Por motivos retóricos e a fim de não estragar o relato de hoje, encerro logo a descrição da alma rastejante. Continuo e já vou terminando. Poder perceber as coisinhas da vida, boas ou ruins, é privilégio de todos. Só pelas chateações já vale a pena correr o risco e defenderei essa posição até ter a certeza de que depois da morte vão me encaminhar para o paraíso... ou para uma cidade como Poços de Caldas.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
O delivery é coisa do diabo!

terça-feira, 28 de abril de 2009
Reflexões sobre o clássico!

Há algum tempo aprecio o futebol. A bem da verdade, desde muito pequena e influenciada por meu pai, aprendi a nomenclatura pra lá de difundida do esporte por excelência do nosso país. O primeiro grande jogo de que me lembro foi a amarga derrota da Seleção Brasileira para a Argentina na Copa do Mundo de 1990. Oitavas de final e sucumbimos diante do cabeludo Caniggia. Felizmente, nos dois anos seguintes tive a felicidade de ver o Cruzeiro campeão da Super Copa da Libertadores. Em 97 ainda pude conferir o Celeste levar a própria Libertadores contra o Sporting Cristal do Perú. Pois bem, foi a geração de Palhinha, Nonato e Dida que me convenceu, além do fanatismo de meu pai, a adotar a camisa azul e branca como paixão incondicional. Querelas a parte, penso que o futebol tem muito a nos dizer. São metáforas valiosas para a compreensão das coisas da vida. Inspirada por essa aposta e saudosa de minhas escolhas futebolísticas, resolvi discorrer sobre o clássico dos gramados mineiros. Ontem, dia 27 de abril, assisti ao clássico do meu estado, Atlético e Cruzeiro. Apesar da empolgação cabe aqui um juízo filosófico acerca do jogo. Adiantando o grand finale, ganhamos por cinco gols de diferença. Porém, o crucial da partida não foi a goleada. Apesar do supremo prazer causado aos torcedores, a chuva de gols somente refletiu um outro ponto mais interessante: o estilo do time. Se de um lado víamos um técnico tentar estratégias bizarras de organização tática, de outro podíamos notar a tranqüilidade de quem sabe o que é. Parafraseando Nietzsche: gelo liso é um paraíso para quem sabe dançar! O controvertido Adilson Batista escalou sem mais problemas o seu time tradicional no esquema 4.4.2. que se transformou rapidamente naquilo que a equipe precisava devido à flexibilidade e excelência dos seus jogadores. Já Emerson Leão tirou da cartola a pretensa solução para o Atlético com seus quatro volantes e Júnior, a estrela solitária na ponta esquerda. Teve quem pensasse que daria certo. Com a vantagem de dois resultados iguais, um empate seria primoroso saldo para o Galo. Com a marcação cerrada no meio, o Atlético seguraria o meio cruzeirense e numa sobra de bola oportuna Júnior colocaria Tardelli na cara do gol. Pois é, no papel até funciona, mas Leão esqueceu de verificar a qualidade de seus jogadores e a capacidade de avançar ou recuar com qualidade na hora oportuna. Para o torcedor que escuta a formação tática do seu time, parece mesmo que o esquema pode funcionar. A questão é de um lado o meio era formado por Ramirez, Wagner, Fabrício e Paraná e do outro lado do Mineirão tínhamos Carlos Alberto, Márcio Araújo, Renan e Rafael Miranda. No Atlético ainda havia um “homem surpresa” solto, à frente do meio, Lopes “inexistente” de Tal. No papel, o estilo do jogador não significa muito, mas é no campo que a excelência define a pendenga. Para aqueles que viram o clássico de domingo fica a certeza de que o meio cruzeirense é de mil e uma utilidades; sabemos que Ramírez marca e arma as jogadas como ninguém; que Wagner, nosso meia-armador, sempre volta e busca a sobra junto com os volantes; Marquinhos Paraná, disciplinado e estável, não se furta aos lances na lateral e, por fim, Fabrício, coordenador da defesa intermediária, tem uma mania irresistível de passar o meio de campo. Vá lá, o Cruzeiro está longe do carrossel de Cruyf, mas lucramos muito com a tal flexibilidade dos jogadores. A retranca do Atlético teria até funcionado se do outro lado não tivéssemos jogadores de grande qualidade técnica e entrosamento. Cabe aqui a pergunta: qual é melhor estratégia? Defesa ou ataque? Partir para a definição ou esperar e reagir? Aqui já não falamos mais de futebol, mas de questões existenciais: qual é o melhor modo de vida? Jogar com o regulamento nas mãos nem sempre é a melhor escolha, basta nos lembrarmos de 2007 e da vigorosa e humilhante vitória do Galo contra o Cruzeiro. A questão é mais antiga do que podemos imaginar. Um herói, dotado de areté (virtude) não entra em comparações. Ele é aristoi, excelente, virtuoso em qualquer intempérie. O melhor naquilo que faz zomba do adversário como zombaria de uma criança. O que está em seu peito não é a exigência burocrática da vitória, mas a naturalidade com que se sobrepõe sobre seu adversário. Assim o fez o atacante Kléber, imitando uma “galinha” e o “chorinho” do time alvinegro. Obviamente, cristãos que somos, repudiamos a iniciativa bélica do jogador. Diferentemente dos gregos, somos obrigados a engolir a exigência do fair play. Definição nossa: Fair play significa ganhar, porém não tripudiar. Como se o futebol fosse apenas um esporte técnico, isento das paixões e os jogadores apenas autômatos em campo. Ora, para o torcedor que se vê representado por seus onze jogadores nada mais catártico e prazeroso do que a desforra. Tal como fez Aquiles contra Heitor, o time azul criou a sua própria maneira de encenar a via-crúcis do adversário. Ontem, fomos certamente os soldados romanos, independente da moral ou do bom-senso. Como em um teatro grego, o público vibrou sentindo-se renovado e vingado de todas as provocações extra-campo. Isso é o futebol, caros senhores, feito de dribles, provocação, demonstração de superioridade e de alegria. Kléber deveria ter dito: desculpa meu caro Juninho, não queria ter feito o gol, mas não pude evitar, sinto-me culpado! Ora, eia, deixemos a hipocrisia de lado e aceitemos as regras tácitas do jogo ou então mudemos a preferência nacional. Que tal uma sóbria partida de xadrez?
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Causos de família.

Outro dia desses conversava com meu pai sobre as coisas da vida quando ele tirou da cartola a seguinte frase:
- Minha filha, "tapar o sol com a peneira" não é bom negócio.
Curiosa com o porquê da estória fiz cara de interrogação e ele completou explicando:
- Por que dá um xadrezinho terrível!
Esse é meu pai (risos)!!!
segunda-feira, 13 de abril de 2009
O caminho
O caminho, by Guiterça-feira, 7 de abril de 2009
O amor, amizade e outras coisas que valem a pena!!
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Compulsividade: estudo de caso, o carnaval!
foto by Vêsegunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Defesa ou indefesa?
Cão, foto de Vêsexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Sobre a morte
Noite, foto de Vêsábado, 13 de dezembro de 2008
2009- Azul
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Diálogos com meu amigo Darim!
Façamos uma
Rapidinhas dogmáticas!
Espasmos
Não seria a depressão aquilo que os antigos denominavam como “melancolia”? Certo mal estar nauseante que faz o homem trocar tudo que é ativo e está em movimento pela apatia do sono ou da reclusão? Certo sorriso amarelo para a vida, olhar de gato quando acorda, como se dissesse: grande coisa estar aqui!
Talvez desse não-saber-o-que-fazer tenha origem a imensa quantidade de quinquilharias que inventamos ao nosso redor. Adornos que devem dar sentido, preencher os vazios, sempre mais fundos que qualquer tentativa. Alguns menos fundos se contentam, para os outros existem quinquilharias gigantes. Para o homem que se sabe vazio é preciso outros preenchimentos, mais sutis, mais autênticos. A escrita é um deles.
A escrita é patética, interessada e terapêutica. O verdadeiro escritor não escreve para os outros, escreve para si, purgando-se de tudo que o sufoca, prende. Outras escritas feitas para informar, formar, instruir, advertir, essas e todo o resto se dividem em duas classes: retórica e manuais de auto-ajuda.
Quem é o leitor? Nenhum compromisso tenho com os leitores, talvez nem chegue a ter um deles algum dia. Quando conserto uma frase ou tento escrever de maneira mais inteligível faço-o por mim mesmo, com o único interesse de que a idéia que se passa naquele momento em minha mente não seja mal expressa através das palavras. Quem escreve para o leitor constrói discursos, sempre adequados a uns e antipatizados por outros. E o que isso tem de importante? Agradar ou desagradar não me interessa.
A vida interior de cada um é, para o próprio indivíduo, a única coisa digna de verdadeira preocupação. O modo como se vive também é a única matéria realmente importante a se pensar. Por último, o significado da morte é tão somente o assunto que mais nos leva a mudar nossas vidas.
Quem somos nós? Ganhamos muito se descobrirmos o significado ou pelo menos alguns traços do próprio eu, ao invés de totalizarmos as experiências singulares assumindo compromisso com qualquer axioma da natureza humana. A tentação de generalizar é tão grande quanto é comum a preguiça de afirmar categoricamente o relativismo absoluto. Tentando ficar entre o lá e o cá, ainda assim, não ganhamos muita coisa. Talvez voltemos a investir nos manuais da Corte como os de Pascal ou Gracian. Talvez a leitura do dia seja: Os Caracteres Humanos, do Conde de La Rochefocault.
Estão tentando
- Estou fora de órbita; - não vejo sentido no mundo; - tudo é perspectiva; Sem considerar a validade destas frases percebe-se o quanto elas caíram no gosto do povo. Ai de quem não admitir a perspectiva em meios acadêmicos. Inventamos a estética da melancolia e do niilismo. Construímos discursos sobre o não-ser a todo o momento como se isso fosse muito simples de digerir. Ao mesmo tempo em que bradamos o fim da verdade, marcamos a consulta no psicanalista e corremos atrás das receitas de medicamentos antidepressivos. Estou enganada ou sobraram parafusos na montagem da estante? Será mesmo que sabemos, vitalmente, sobre tudo que dizemos? Mais um ponto: será que queremos a vida que contamos ou fingimos que aceitamos para entrar na ordem do “normal”. É pelo desejo de normalidade que enlouquecemos? Paradoxal isso.
A questão continua: trocar a tradição pelo quê? Se a questionamos algum dia é porque a velha matrona cheirava mal a alguns narizes mais sensíveis, disso não duvido. O que pergunto é: o quê colocamos em troca? Alguns mais ferrenhos me diriam: não queira nada em troca, mulherzinha! Desculpe minha mesquinharia feminina, mas prefiro um urubu na mão, cheirando mal e me fazendo companhia do que duas andorinhas amarelas no horizonte. Falo por mim, mas não almejo só a minha pessoa, solidão é uma casca dura demais para vestir e ainda suportar o mundo.
Algumas coisas nesse novo paradigma me favorecem. Não poderia ser acusada de “incoerência”. Retoricamente falando, eis um bom argumento. Mas eles não abandonaram o princípio da não-contradição. Seria deixar a mala mais importante para trás. Até os perpectivistas, dentro de um corpo de explicações particular, precisa do princípio. Como disse, penso que é uma questão de estética, há um prazer em afirmar o nada. Há um prazer em se sentir superficialmente no fundo do poço.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Je ne sui pas un femme facile

Justamente o que penso desta perspectiva ou deste discurso sobre a mulher é o que eu gostaria de tentar apresentar daqui em diante. A metodologia que utilizo aqui é aquela criticada no meio científico, que não fortuitamente é composto, na sua maioria, por “homens” marcados pela exigência do método more geométrico. Não tenho dados quantitativos, não recorro às estatísticas e nem mesmo às amostras uniformes. Não me importo se a comunidade científica ou filosófica reconhecerá ou não a profundidade e a validade do que eu digo. Enfim, não escrevo para acrescentar nada à história dos estudos sobre o preconceito sobre a mulher. Escrevo com o simples intuito de esclarecer a mim mesmo o que eu sou. Vale dizer, nessas linhas estão presentes certas ponderações marcadas especialmente pela parcialidade e pelo interesse.
Na história da filosofia clássica a experiência não é vista com bons olhos. Já para o senso comum ela parece ter um papel de grande destaque. É a partir da experiência que todos falam e, consequentemente, julgam. Confesso que nem toda experiência ou vivência é lá muito produtiva e que nem todo discurso ou opinião merece ser ouvido. Mas em se tratando deste assunto, da condição da mulher, acredito que é delas, das mulheres, que uma espécie de manifesto empírico deve surgir.
Desde que eu nasci e isso já faz algum tempo, escuto e reproduzo determinadas proposições sobre a mulher. Hoje reproduzo muito menos os discursos mais degradantes e preconceituosos, mas percebo que restam vestígios, não muito sutis, desta mesma perspectiva. Enganamos-nos muito sobre o fim do preconceito porque os gestos mais absurdos são até mesmo criticados e abominados pelos próprios homens. Daí pensamos: ora, o mundo mudou e mudou para melhor. Hoje em dia a mulher se casa por amor, tem quantos filhos quiser e ainda pode ganhar mais que o marido em sua profissão. Por mais ridículo que possa parecer este discurso ele tem a sua eficácia, já que há apenas duas, somente duas gerações anteriores, isso não era óbvio.
Um passo a mais (para mulheres crentes de sua emancipação): é possível escutarmos outro discurso, esse mais ousado: o que defenda a total desvinculação da maternidade e do casamento para a realização da essência feminina, já que estas não são condições para que as coitadinhas sejam efetivamente felizes. Vejam bem, mesmo considerando todos estes discursos que acredito, sinceramente, serem de autoria dos mesmos feitores que defendiam a mulher do forno e fogão, não aposto nem um dinheiro de que isto reflita e resolva a verdadeira condição da mulher em nossa sociedade (Brasileira... Mineira... Divinopolitana – com todas as ressalvas da minha anti-metodologia). E porque digo isso? Basta olharmos um pouco a nossa volta e percebemos que nem somos tão mais esclarecidas do que nossas avós. Sofremos do mesmo mal que as anciãs, só que de modo diferente. Ainda hoje somos definidas sempre em frase comparativas. Se gostamos de futebol, atenção, não temos o direito de desconhecer as regras, devemos saber profundamente qual é o esquema tático, os melhores jogadores em uma determinada posição (vá lá: médio-volante) e não podemos cometer gafes em nenhuma ocasião. Pois se algum deslize é cometido não somos julgadas como más-entendedoras do esporte, somos contempladas com dois julgamentos possíveis: um complacente e caridoso que nos perdoa pela burrice, afinal, somos mulheres; outro mais grosseiro (neste caso, a mulher certamente não está na condição de fêmea solteira no cio) nos cobra mais rigor e atenção, afinal se você quis entender de algo que não lhe diz respeito, ora, é preciso saber e saber bem. Em relação aos trabalhos domésticos vivemos o deslumbramento tecnológico e ou financeiro. Passamos as tarefas domésticas para as máquinas e, quando possível, para as faxineiras. Sabe quem limpa minha casa quando a sujeira torna-se insuportável? Adivinhem? Uma mulher, uma mulher negra e faxineira. Grande emancipação conquistamos, passamos o sub-serviço para outra mulher que quase sempre nem é vista como participante do mesmo gênero que o nosso. Engraçado, não? A definição da mulher, a nossa condição passa por caminhos complexos. Não basta nos livrarmos do óbvio, é preciso caminhar mais e caminhar melhor. A relação homem-mulher (minha incapacidade teórica e empírica obriga-me a deixar o caso das lésbicas de lado, pelo menos por hora) é segundo penso, o lugar mais apropriado para encontrarmos a contraprova aos avanços do sexo feminino em nossa sociedade. Daqui em diante assumo todo o risco de ser parcial e conto apenas com a expectativa de que algumas leitoras identifiquem-se com minhas descrições e corroborem meu pensamento.
Sutilmente, e ai encontra-se o perigo, os homens nos colocam no lugar que nos foi reservado pelo discurso dominante. A subordinação não se apresenta como tal, mascara-se de diversas formas, sempre belas ou práticas.
Diz o homem: - querida, é mais prático que você cuide da nossa alimentação, afinal você cozinha tão bem meu amorzinho e eu seria um desastre na cozinha.
Responde a mulher: benzinho querido, você falando desse jeito é claro que eu vou cuidar de tudo.
Continua o homem: olha amor, depois eu lavo a louça para te poupar.. Você sabe que faço tudo por você, não sabe?
Finaliza a tonta com um sorriso angelical dizendo para si mesma: nossa! que homem maravilhoso, compreensivo, adoro cuidar de nós dois. Vejam bem mulheres, a tarefa é, por natureza, vista como pertencente à mulher, mas, em casos extraordinários, geralmente ocorridos nos dois primeiros anos de casamento, o homem agrada sua mulher “poupando-a” de mais uma tarefa natural e feminina: lavar a louça. Em outros momentos, quando o assunto em pauta no recinto é o do casamento, minha nossa, a prerrogativa do desejo é sempre da mulher. Nem mesmo a minha experiência de ex-casada vale nesse momento. Todos tendem a pensar o quanto seria maravilhoso para a mulher ser pedida em casamento. A bem da verdade, eu preferiria fazê-lo eu mesma, e olha que já fiz, mas não, a prerrogativa do pedido é sempre do sexo forte. Querelas a parte, se eu engravidasse um homem, casava na hora! Oh pobres seres femininos, o que será de nós? Talvez seja preciso inventar uma outra linguagem e um outro mundo para as nossas consciências livres, um não-lugar!






